Boato ou a “coreização” da África do Sul

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Tinha tudo para ser credível, mas talvez não fosse. Talvez, pois há meio mundo que ainda está confuso. Incluindo eu. A notícia de que quatro futebolistas da Coreia do Norte teriam desertado deixou todos em alerta. De tal forma que, de quase completamente ignorada, a seleção asiática passou a ser a mais desejada e procurada pelos Media internacionais. Pelo menos por um dia. 
A cada vez que o frio sol rompe (aqui é inverno, sabiam?), não passam de meia dúzia os jornalistas que seguem os trabalhos da misteriosa Coreia do Norte. Mas a notícia revelada pelo “La Stampa” de Itália deixou todos em alvoroço. E houve romaria. Claro!
À hora da prevista conferência de imprensa em Tembisa, para lá do “judas’s ass” (em inglês soa menos ordinário, não é?), a mais de uma hora de Joanesburgo, são mais de 200 os profissionais de comunicação social que se apinham à porta do local de treinos.
A abertura dos bem policiados portões motiva uma louca correria a ver quem arranja um lugar decente na minúscula sala de imprensa, que não tem mais de 20-30 lugares sentados. Já vi corrida aos saldos menos espalhafatosas.
Em poucos minutos a ilusão cede à deceção: ficamos a saber que a conferência de imprensa, marcada pela própria FIFA, tinha sido cancelada. Todos estupefactos. Ninguém se deslocou aquele fim do mundo para nada. E era devido um esclarecimento.
Valeram os 15 minutinhos de treino à porta aberta. Toca a contar a ver se estão cá todinhos, os 23 futebolistas. 19, 20, 21, 22, 23, 24…. 30… 32… 34… 38… ao todo seriam uns 40 elementos equipados ou com fato de treino a evoluir no ervado, algo que em Portugal costumamos chamar de relvado.
Entre os mais de 200 jornalistas, foi impossível confirmar se os alegados quatro desertores estavam entre os presentes. Os cinco presumíveis jornalistas norte-coreanos (há quem jure que são o que devem ser… da polícia secreta) presentes no local tiveram súbita amnésia e deixam de entender ou falar uma palavra que fosse em inglês. Nada que surpreenda.
As nossas expetativas são frustradas com a anulação da conferência de imprensa, mas é prometida uma declaração do Media Office da FIFA. Uma satisfação para o sucedido. Saímos para o exterior do estádio, mas mantivemo-nos no interior do complexo, à espera das anunciadas explicações do dito senhor. Nada! Mais uma vez, nada que admire.
Às sucessivas solicitações para chamarem o triste e desaparecido figurante da FIFA, os polícias, movidos por uma estranha atitude quezilenta e intimidatória, começam a empurrar-nos a fim de sairmos “a bem ou a mal” do recinto.
A força foi usada algumas vezes (mas não passaram de empurrões), bem como a ameaça de partir o material em caso dos profissionais da imagem não abandonarem imediatamente o local.
De forma pouco digna – para uns e para outros – os cães de fila da FIFA e jornalistas lá ficam separados pelo enorme portão da vergonha. A notícia ecoou, obviamente, em todos os cantos do planeta.

 

PS:  Sim, eu sei. A palavra ‘coreização’ não existe 🙂

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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