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Geisha

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África África do Sul

Quando fixa os seus rasgados olhos nos meus, é um misto de surpresa, prazer e desconforto. Não esperava, confesso. Ainda não sei o seu nome, mas o corpo esguio, o rosto esbelto, a pele aveludada e o olhar penetrante sobravam para cativar a minha atenção. E de qualquer um.
“Dá-me licença que passe? O meu lugar é à janela”, diz-me, imperturbável, como que a flutuar na sua aromática beleza.
Anuí. Sem voz. Levanto-me, terei esboçado um discreto sorriso e o meu olhar segue-a. Sem assombro, apenas com prazer interior.
Sinto o seu perfume a tentar-me enquanto se move, em câmara lenta. Sedutora, não há dúvidas. Estamos em primeira classe do voo Cidade do Cabo-Joanesburgo.
A possível fantasia que poderia brotar de uma mente imaginativa nem se chega a materializar, pois, em parcos segundos, eis que chega a companhia. “É o pai”, penso.
Impaciente, o personagem faz-me levantar uma e outra vez para tentar encontrar espaço para a mala de mão. Com isso, permite-me olhar para Li Xiu (nome fictício) sem ser óbvio. Invariavelmente, a jovem asiática fixa os olhos nos meus. Com uma agressividade que me amarrava. Como que com um inexplicável desejo de alguém que está anos sem ver aquele que nunca abandonou a profundeza do seu coração. 
Liberto do seu observar, percebo que veste caro. Não propriamente sóbrio, mas caro. E nos seus finos dedos (sim, tem umas mãos belas) reluzem anéis, um deles com uma grande pérola. Os dedos são esguios e as unhas compridas.
O ‘pai’ senta-se, finalmente e de vez, e não tarda a insistir em miminhos que Li Xiu renitentemente aceita. Começo a desconfiar, mas quando ouço a sua voz, as duvidas dissipam-se.
Como que dotado de um sétimo sentido (upgrade do ‘velhinho’ sexto), logo interiorizo que aquela voz não enquadra com a figura imaginada, destruindo-a – como a qualquer fantasia – numa impercetível fração se segundo.
– “Amorxinho, não me faxax ixo. Xtou canxada”. É esta a resposta que imagino daqueles lábios, num jeitinho melosamente meigo de… criança mimada de sete anos. Como se uma batata lhe ardesse na boca.
Como se não bastasse, não tarda a tirar os sapatos e exibir os seus igualmente esguios pés, com umas unhas de meter inveja a qualquer águia. Isto não vai melhorar…
Os modos do seu amante, mais baixo uns bons 20 centímetros, não me deixaram a mínima duvida que é chinês. Foram dois meses naquele belo país, sei do que falo. Ainda tenho pesadelos com ossos de frango a voar de gordurosas bocas diretamente para cima das mesas.
Não há dúvidas. São amantes. Um casal impossível. Um pesadelo estético, mas certamente uma harmonia de interesses.
Quando, já fora da aeronave, me fita com olhar de despedida, já não recebe o mesmo olhar discreto de espanto e admiração, mas apenas um “é tudo isso que esperas da vida”?

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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