Good Times

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África Lesoto

Quando Gabriel Jardim me deixa no meio da confusa Maseru, é mais do que evidente o seu ar de pesada preocupação.
– “Não viu já o suficiente? Era melhor voltar connosco”, insiste, com ar bem apreensivo.
Eu também insisto. Estou irredutível. Umas horas na capital do Lesoto não me satisfazem e preciso de tempo para perceber um pouco melhor o ‘Reino das Montanhas.
Quando me pedem 70 euros por um quarto nada de especial num país pobre parece-me inapropriado exagero e decido meter-me ao caminho a procurar uma alternativa ao Lancer Hotel. Mochila às costas e fazer pela vida. Em meia hora encontro um local muito aceitável e por apenas 30 euros. O tempo rendeu.
De volta ao centro, aceito a sugestão e vou jantar ao Good Times café. É cedo, ainda, mas as mesas já estão todas ocupadas. Maioritariamente por pessoas que já estavam na ‘noite’, apesar de serem ainda 19:30. Felizmente, em pouco tempo arranjo mesa e com maior rapidez decido o jantar: truta com arrozinho e legumes.
– “Posso sentar-me contigo?”, pergunta-me, quase de imediato, uma bela jovem africana. Ainda nem tinha respondido quando se junta uma amiga. Sorriso. Até começarem como que a discutir. Interrompo-as. Decido adiantar trabalho.
– “Nunca fui para a cama com estranhas. E jamais paguei por sexo. E não penso mudar de atitude. Se ainda estiverem interessadas em conversar, podem sentar-se”.
Sorriem. Genuinamente. Chamam-me tolo e sentam-se mesmo. Mal o fazem, uma terceira amiga (um ‘Ferrari’, comparada com as antecessoras) junta-se ao grupo. O que fiz eu para tanto sorriso??
Acho-lhes piada. Do nada, começam a trocar ‘acusações’ sobre quem tem namorado ou não. Vencem os argumentos da solteira menina de ‘alta cilindrada’.
De forma inesperada – bom, sendo o único branco no bar, talvez não seja assim tão grande a surpresa – mais ‘indígenas’ vêm falar-me. Mulheres o homens. Apresentam-se. Pedem-me o número de telemóvel. Dão-me o deles. ‘Entrevistam-me’ sucessivamente. E vão-me anunciado aos amigos.
Em pouco tempo, já me cruzo com estranhos que me tratam pelo nome. E cada um com o cumprimento de mãos mais original que se possa imaginar. Se tiver memória, escreverei um tratado sobre o assunto.
Mesmo com dinheiro contado, mais do que uma pessoa oferece-me bebida. Hoje deu-me para Smirnoff. Recuso, amavelmente. De nada adianta. E são bastantes as ofertas para me mostrarem a cidade no dia seguinte.
Um povo bem-disposto, dócil. Encarna o verdadeiro espírito de África. O Lesoto é um país a revisitar, sem dúvida. Até porque tem paisagens fantásticas que não terei a oportunidade de contemplar.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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