No trilho de Pokhara

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Ásia Nepal

Hora de rumar a Pokhara. Excitados com a ideia. Trata-se de uma das capitais mundiais do treking e o preço da viagem parece-nos decente. Não pagaremos muito mais do dobro do que os locais. Bom, talvez apenas o triplo.
Subitamente, ficámos sós no mini-bus. O trio que nos atendeu na caótica central de camionagem desapareceu. Para desconfiar? Sem razão. O motorista volta pouco depois. Arrancámos. Tudo só para nós. Estranhamente, não há mais qualquer passageiro.
A realidade não tardou a mudar. Ainda nem tínhamos saído da central de camionagem. De “à patrão” a sardinha enlatada foi um instante. Ao motorista juntam-se dois sócios, toda a viagem em pé na porta, com a cabeça de fora, a angariar passageiros. A buzina não se cala. Pela primeira vez, estrangeiros viagem connosco. Um casal. Não passou de um olá.

Abandonar a confusão de Katmandu é penoso. Um caos sem igual. Ansiávamos pelas paisagens de montanha. Dispensávamos era tantas curvas, em ritmo Formula 1, o motivo pelo qual os sacos plásticos para o vómito desapareceram a um ritmo louco. Felizmente, não lhes demos uso.
Hima Bertha senta-se a meu lado. Chama o irmão. Coloca-se junto do Vasco. Ela 18, ele 15. Ambos excelentes conversadores, apesar de limitações no seu inglês. Prometia…
A verdade é que deram cor única à nossa viagem. Em três horas fizeram-nos amar ainda mais este país. Abriram-nos a sua alma. Quiseram saber da nossa. Agora, entendemos melhor o que é o mundo rural do Nepal.
Orgulhosos, mostram-nos fotos da família. Não precisam dizer que são pobres. Jurávamos que a mãe de 55 anos era a avó, com uns 85. “Está muito doente”, lamenta Hima, que na foto ladeia a progenitora, juntamente com o irmão.
Ela estuda para ser professora de inglês. Mostra-me o livro que servirá de guia ao seu desígnio. Ele sonha com cinema e televisão. Não podia ter melhor interlocutor. Ela mostra umas sapatilhas verdes, acabadas de comprar. Do mais básico que há, mas o suficiente para provocar um especial brilho nos olhos. Ele confessa o sonho de ter uma bicicleta. Mas com dúvidas que o consiga nos próximos anos. “A família em outras prioridades”, diz, resignado.
A paragem de almoço serviu para lhes oferecermos duas mantas, a estrear. Um pequeno gesto simbólico pelo prazer que a sua companhia nos deu. Pouco depois, em novos ziguezagues entre montanhas, ela vira e revira a carteira. Encontra duas canetas. Testa-as. Escrevem. Oferece uma a cada um de nós. A melhor prenda que nos poderiam ter dado neste país.
Desolados, separámo-nos. Nós ainda íamos ter mais quatro horas de viagem (as seis “previstas” passaram a um total de oito).
“Vocês vão chegar a Pokhara antes de nós”, surpreende-nos ele. Depois de atravessar a ponte de cordas, estilo Indiana Jones, os jovens irmãos tinham ainda “quatro a cinco horas” montanha acima até chegarem a casa. Sabe-se lá por que caminhos. Parte deles noite cerrada. Aos nossos olhos, sobram motivos para o fazer, mas não se queixam.
Damos os nossos endereços de email. Respondem com a sua morada. Podem estar certos que vamos escrever.
É com um sorriso agridoce que nos despedimos. Interminável. A trocar acenos e olhares até a distancia ser definitiva.
As curvas trazem-nos novos cenários. Adultos tomam banho à face da estrada. Sentados. A água da bomba pública trata de levar a espuma do sabonete. Crianças brincam por todo o lado. Pobreza extrema. Nem por isso tristeza.
A viagem continua, muda o figurino da paisagem do autocarro. Agora outras jovens ficam comprimidas no cubículo da frente junto ao motorista. Éramos 16 em parcos m2 na frente da viatura. Regularmente, o motorista tinha dificuldade em meter uma mudança, tal a confusão de corpos apinhados.

Sempre que a criança queria leite, a adolescente mãe tinha dificuldade em retirar o seio. Chegava-me ainda mais contra o vidro para lhe dar maior liberdade. Uma outra jovem pousa violentamente a mala em cima do colo do Vasco. Pega numa exausta criança de uns 10 anos, que não conhece, e fá-la dormir no seu aconchego. Tal como boa parte dos passageiros, a criança viajava em pé.

Ninguém fala inglês. Vamos todos sorrindo. Ainda mais com o olhar. Tiramos fotos. Todos querem ver. Sorriem de novo. Agora a exibir belos dentes brancos. Posam naturalmente para a objectiva.

Amassados. Exaustos. Cansados. Mas estamos em casa…

A estrada começa a dar lugar aos verdes arrozais, que desmaiam até ao rio, que teima em acompanhar-nos. As águas são puras e levam-nos até às fraldas do Annapurna…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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