Sentiremos a tua falta, Nepal

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Ásia Nepal

As experiências anteriores dizem-nos que, neste caso, mais vale madrugar. Íamos deixar o país, viajar umas centenas de quilómetros até ao próximo destino, já na Índia. Por isso, era imperativo estar na estação de camionagem antes das 06.30.
Assim foi. Tudo em nepalês, complicado perceber qual o autocarro para a fronteira. Feita a pergunta, logo nos quiseram vender o bilhete. Mais caro. Preferimos esperar pelo “autocarro de luxo” prometido.
Vendo-nos determinados, lá confessou que o veículo em causa era “aquele” que estava “mesmo para sair”. Obviamente, mais uma sucata. Confirmámos com alguns turistas a bordo. Íamos todos para o mesmo lugar.
Desejámos naquelas serpenteantes oito horas até à fronteira que a estrada tivesse milhões de curvas a menos. Mas as nossas preces não foram ouvidas. Desgastante. Mas o nosso estômago aguentou…
A meu lado, uma coreana (foi a única coisa que percebi na curta conversa) limpava discretamente sucessivas lágrimas, sempre com o rosto fixo na paisagem. E phones.
O Vasco teve mais sorte, socializou com um jovem checo, que viajava há meses. E que “fumava” demasiado. Por isso, sempre numa “boa”. O checo.
Um inglês confiou que o “pica” o avisava do local ermo onde iria sair. Ia passar uns dias a um refúgio remoto na montanha. Quando tirou as dúvidas, teve de sair e viajar para trás mais umas três horas. Estranha confiança no sistema.
Ao chegar à fronteira, a nossa primeira avaria. Passageiros entram e saem, conforme a mutável confiança do motorista na resolução do problema. Surreal. Uma hora depois, seguimos viagem. Desviada depois por um comício. Muitas bandeiras vermelhas. Ficámos na dúvida se um longínquo passado estaria a ser aqui presente.
Deixam-nos a quatro quilómetros da fronteira. Temos de socorrer-nos dos tuc tuc. Negócio complementar por estas bandas, quando se viaja. Recusámos preços estúpidos. Iniciámos a caminhada.
Um indiano apanha-nos mais tarde. Faz um preço justo. Não imaginámos como vamos caber três num frágil riquexó. Ele trata disso. E pedala pela vida. Mesmo sem entendermos a língua, percebemos que nos livrou de indesejada companhia durante a viagem.
No fim, recebe o dobro do estipulado. E o Vasco presenteia-o com uma t-shirt. Acabámos bem. Na fronteira, a simpatia que já tinha sido revelada no passado.
O Nepal deixou saudades. Muitas! Certamente, um país a voltar…

 

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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