Vaishali Express

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Ásia Índia
Em poucos minutos ficámos a saber que o comboio expresso não tem assim tanta urgência. Alias, como nada na India. Convictos que, se tivéssemos “pulmão”, poderíamos correr ao lado da locomotiva durante as 13 horas do trajecto que, afinal, foram 15.

Ao chegar ao cais 8 da estação de Deli, uma invasão sem tréguas. Milhares de pessoas carregando todo o tipo de malas e objectos, tentando ser os primeiros a entrar. Para arranjar espaço para os embrulhos. Feitos das formas mais surpreendentes e criativas. Recuámos muitos, muitos anos no tempo…
De um rol de classes, ficamos logo a seguir à primeira. Em conforto, apenas a diferença de dois beliches. Quatro no nosso caso. Mais dois do lado oposto do corredor, de apenas um metro de largura.
Azar. Dois companheiros de viagem que não falam inglês. Ou arranham-no de forma muito deficiente. Demasiado para uma conversa com sequência, inteligível. Senhores de cinquenta e tal anos. No corredor, uma esbelta indiana, certamente de casta superior, numa outra dimensão. Ar simpático, sereno, mas não largou os phones.
Sete presumíveis pós-universitários invadem tranquilamente o nosso espaço. Aqui, o bilhete só dá direito a usufruir plenamente no nosso beliche na hora de dormir. Antes disso, é de toda a comunidade. Encolhemo-nos. Apertámos.
Horas depois, cansaço generalizado, alguém toma a iniciativa, ao lado da bela indiana. Nós vamos atrás. Os simpáticos e tagarelas intrusos batem em retirada. Finalmente, um plano horizontal para descansar.
Sono rápido. Mas atribulado. Corpo ainda em adaptação. Olfacto há muito que o fez. Manhã desperta cedo. Filas para lavar dentes. Wc´s muito precários (para os europeus) concorridos. Lixo no chão.
O caos desfila no exterior, vislumbrado pela janela. Edifícios abandonados, destruídos ou por concluir. Passagens de nível com inúmeros “postais” à espera que o comboio lhes permita seguir caminho. Lixo generalizado. Indianos, quais cogumelos, a defecar serenamente ao longo da paisagem. Aqui, não tão interessante. Uma criança mais criativa. Fá-lo de cócoras, em cima de um muro…
O calor aperta. O sol continua a subir. Pequenas aldeias rudimentares. Bomba de água a meio. Bicicletas arrastam-se pelos carreiros. Pessoas vagueiam por locais ermos. Dispersados, agricultores tratam a terra. De forma despreocupada, tranquila, lenta. O calor vai esmagando. Estamos a caminho de Gorakhpur.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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