Welcome to Nepal

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Ásia Nepal

Deveríamos estar na manhã seguinte às 10:00 em Katmandu. Era o combinado com João Garcia, o alpinista. Dada a troca de fronteira, ficamos a saber que não estaremos a umas três horas de viagem da capital do Nepal, mas, “a correr bem”, a umas 12.
Dormida fugaz em Lisboa. A seguinte no avião. Depois pernoitámos no comboio. Agora ia ser a bordo de um bus que há séculos deveria estar num museu. E a estrada não era fácil. Pensamos alterar trajecto, mas isso só na impossibilidade de encontrarmos o João.
Era imperioso aceder à internet. Parecia impossível naquele local esquecido pelo Homem. Partilhamos nossa frustração com o funcionário da fronteira…
“Precisam de quanto tempo? Bom, se é para algo rápido, podem usar a nossa internet”, disse. Nem acreditávamos. Agradecemos a inesperada gentileza das autoridades do Nepal, no ano dedicado pelo país a promover o turismo. O João tinha já enviado duas mensagens. Estávamos confirmados para manhã seguinte.
Os autocarros saíam a horas diferentes, mas chegavam quase todos ao mesmo tempo a Katmandu. Foi a “garantia” que nos deram. Ainda assim, escolhemos o primeiro (17:15). Em pouco tempo entendemos as 12 horas…
De 100 em 100 metros paravam e entrava gente. Mesmo já cheio, com pessoas sentadas no corredor, cabia sempre mais um, dois, três… No tejadilho, a mesma filosofia. A sucata em que nos transportávamos voava a ritmo frenético, chiava nas curvas em que prometia capotar, arriscava nas ultrapassagens… bom que nenhum dos dois é cardíaco.
No meio do mais puro e intenso breu, encontravam gente à face da estrada que era convencida a entrar. Vários torciam o nariz, outros eram quase empurrados a subir. Em vários locais amigos ou sócios tinham já angariado mais passageiros. Sobra já gente apinhada em pé à porta do obsoleto mini-bus.
Paragem para jantar. Prato único. Aspecto duvidoso. Fome dita leis. Arrisca-se. Soube muito bem. Apesar de só termos a certeza quanto a um ingrediente ingerido, o arroz seco. Na espera, somos abordados por outros passageiros. Muitas perguntas. De parte a parte. Hora de voltar à estrada.
O vidro não fecha totalmente na janela a meu lado. Coloco mochila a tentar minorar estragos. Agasalhos na mala, enterrada no tejadilho.
Nova paragem para confortar estômago. Neste caso, a vista também. Casinhas praticamente gémeas. Todas com forno em barro exterior. Nas cinco se cozinhava para os muitos viajantes nocturnos. Calor de fogo na estrelada noite. Momentos de plenitude interior. Meia hora quase espiritual. Conversa animada, apesar das dificuldades de entendimento.
O Nepal fervilha de trânsito à noite, todos querem estar manhã cedo em Katmandu.
Seguimos caminho e chegámos. É noite, ainda. 05:00 e Katmandu já mostra tiques e azáfama de metrópole de um mundo que também é o nosso…

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?

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