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Dois palhaços animam a viagem

América Central El Salvador

Juayua é o destino. A aldeia mais interessante da Ruta de las Flores, já perto da Guatemala. Vários transportes públicos para lá chegar.
Na América Central, cada viagem é uma surpresa. Começamos com um palhaço. Literal e profissionalmente, um palhaço. Entra no autocarro. Obviamente bem disposto, diz umas graçolas. Aproveita o facto de haver uns “gringos” (nós) no veículo para fazer piadas selectivas. Algumas em inglês, que só nós parecíamos entender. Arranca alguns sorrisos, não muitos. Recolhe dinheiro pelo espectáculo tão breve, quanto pobre. Fica surpreso quando o interpelamos em perfeito castelhano.
A vida continua. Troca de bus em San Salvador, a capital que prescindimos visitar. Destino volta a colocar-nos um palhaço no caminho. Agora um religioso. Com a autoridade que uma bíblia nas mãos supostamente lhe confere, um chorrilho de charlatanices. Promessas do paraíso aos crentes. O pior dos infernos aos restantes. Gastas e pouco criativas ameaças para todos os gostos.
Gasta a voz para se impor, mas ninguém lhe parece ligar. Ninguém olha para ele. Como se não estivesse lá. Sobe o tom das ameaças. E da voz. Usa mudança de opções sexuais de Ricky Martin para ilustrar a forma como a humanidade caminha para o fim. Felizmente esta viagem acaba pouco depois…
Sansonate. O último autocarro para Juayua já partiu. Estaríamos mal, não fosse o nosso anjo da guarda. Desta vez encarnado na mãe da pequena Paola. Tem o mesmo destino. Convida-nos a segui-la. Viagem de cinco minutos para outro lado da cidade, para o definitivo bus.
Quando percebemos, estamos em pé, apinhados como gado. Mas em cima de carrinha de caixa aberta. Fantástico. Saborosa experiencia subir a montanha, de noite, com as estrelas a guiar-nos. E a brisa a soltar cabelos…
“Ficam em minha casa. São quatro, mas não há problema. Insisto”, repete Ana. Uma e outra vez. Atenta à conversa dos adultos, a pequena Paola olha para nós como que a suplicar-nos que o façamos.
Não quisemos abusar da simpatia. Mesmo. Agradecimentos mais do que suficientes e um sorridente “até um dia”. A simpatia e hospitalidade dos salvadorenhos já não nos surpreende.Juayua esperava-nos. Igualmente pacata. Instalados, deliciamo-nos com as popusas da Doña Cony. As melhores que provamos em El Salvador. Antes de um último copo mais emblemático bar da aldeia..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?