Lago de Atitlán

América Central Guatemala

Confortavelmente sentado. A um simples passo de me banhar no lago. Mp3 como companhia. Aguardo serenamente os primeiros raios de sol…
Afinal, não estou só neste mundo. Ainda mais madrugadores, pescadores afundam os remos nas estáticas águas. Os frágeis barcos avançam preguiçosamente para mais um dia de faina no Atitlán.
O ambiente vai ganhando som animal. As montanhas começam a ganhar cor. Lentamente, a luz destapa vulcões. Dá intensidade ao acidentado relevo. Frescura aos verdes que pintam as margens.
Volto para a cama. Quero sonhar com momento igual.
Gigantesca e saborosa salada de frutas dá-nos energias para atacar um dia pedonal em torno do lago. O tour começa em San Pedro da Laguna, onde nos instalamos. Em menos de meia hora vislumbramos mais de uma dezena de edifícios de diferentes confissões religiosas. Falamos de um pacato “pueblo” com apenas uns 12 000 habitantes. O “karaokee” numa delas empurra-nos para a próxima etapa.
As águas do Atitlán estão consideravelmente acima do normal. Constatamos isso mesmo no arriscado caminho de pedra para pedra rumo a San Juan. No lago, algumas mulheres lavam roupa. Estão vestidas. E parcialmente submergidas no lago.
À distância de dois quilómetros, encontramos San Juan. É aqui que moram muitos dos artistas da região. Várias pequenas “tiendas” com pinturas. Normalmente alusivas ao lago. E aos vulcões que o rodeiam.
Uma cooperativa de mulheres especialistas nos coloridos trajes da região. E uma outra cafeteira. Fomos espreitar. No pequeno – na verdade, minúsculo – museu “cafetero” podemos ver uma dezena de fotografias que explicam todo o processo. Prescindimos de visita aos campos. O café servido no final não surpreende. Mas dá-nos energia para continuar.
Amavelmente, recusamos as múltiplas ofertas de tuc-tucs. Queremos seguir caminho a pé. E é assim que vamos para San Marcos. Praticamente passamos ao lado de San Pablo. O trajecto entre ambas é considerado perigoso. Muitos assaltos. Foi a própria polícia a avisar-nos. Convida-nos a subir às traseiras da pic-up. Repetimos o filme…
É nesta pacata aldeia que almoçamos. Num bar muito zen gerido por estrangeiros. Ambiente relaxado. Vários viajantes aproveitam para aulas particulares de espanhol. Sempre ao ar livre. E de forma informal. Na relva. Na água. À mesa. Onde apetecer. As aulas de ioga também são muito procuradas.
Enquanto esperamos almoço, atacamos o lago. Belo e relaxante mergulho. Com vista privilegiada de 360º. Seguimos para a toalha. Já dormito com o sol a afagar-me o rosto quando sou chamado para a mesa.
Digestão tranquila. Musical. Voltamos ao pó do caminho. Continua a saga de fotos em torno do lago. Confirmamos que cada vez mais estrangeiros constroem casas nestas margens. Simples. Cativantes. “Escondidas”. Privilégio à privacidade.
É em Tzununá que decidimos apanhar o barco de regresso. Já não sobra muita luz. Renovado prazer atravessar o lago com o sol a esconder-se vagarosamente atrás das montanhas.
O jantar fica para restaurante israelita de um complexo hosteleiro. E a digestão no chão da sua zona alternativa. Almofadas amparam os nossos pensamentos enquanto os olhos se fixam nas múltiplas cores do ambiente. Quente.
Há dias que marcam….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?