Aqui, o azar é ao domingo

América Central Costa Rica Nicarágua

Já sabíamos, mas não aprendemos. Terá sido desta. Viajar ao domingo não é aconselhável. De todo!
Optamos por deixar o verão tropical de San Juan del Sur para nos embrenharmos nas rain forests de Monteverde. Trata-se de um dos locais mais cativantes da Costa Rica.
Ultimo banho e já estamos no primeiro “chicken bus” do dia. Meia hora depois saímos para entrar de imediato num “expresso” que nos levaria à fronteira. Muita gente para sair da Nicarágua. Uma inesperada multidão para entrar na Costa Rica. Fila em vários zigue-zagues. Os últimos em trânsito, sob sol castigador.
Afasto-me para conferir menu do restaurante na fronteira. Carlos fica na fila. Há quem tente dar o golpe. Avisa-me para a mulher que se meteu ‘discretamente’ à sua frente. Percebeu que marido ficou mais atrás na fila. Entretanto, uma outra mulher junta-se à prevaricadora. Parece ser sua filha. Minutos depois, o marido aproveita e faz o mesmo. Salta a tampa ao Carlos. Mulher tenta defender-se. Vê que perde tempo. Convida-nos a passa-los à frente. Sugerimos-lhes recuarem consideravelmente na fila, até ao seu lugar original. O mais que conseguimos é que fiquem atrás de nós. Minutos depois, o marido tenta ‘convencer’ um polícia para os deixar passar à frente dos restantes. Enfim… Entendemos o desespero, mas ele é igual para todos.
Missão cumprida. Ufa! Seguir viagem. Manter a tradição de tentar um TIR? Assim seja. Malas arrastadas uns 500 metros. Já em território ‘tico’. Sol abrasador. Malas na berma da estrada. Nos protegidos, na sombra. Os minutos passam, carros ou TIR não.
Passa um autocarro que nos servia. Não o mandamos parar. Meia hora depois, sem qualquer viatura a atravessar a fronteira que estava à pinha de gente, fazemos sinal que queremos seguir viagem. Motorista dá-nos sinal que já vai cheio.
Isto não está a correr bem. Optamos por voltar atrás para apanhar o autocarro na origem. Ficamos a saber que vamos ter de esperar mais de uma hora. Raios…
A sorte parece mudar. Um costa-riquenho diz que nos leva ao local onde iríamos de transporte público. A uns 150 quilómetros dali. E pelo mesmo dinheiro.
Minutos depois, já mal consigo ver o Carlos. Na traseira do chaço, cada um à sua janela e malas e mochilas a dividir-nos. A bagageira já estava cheia. E um terceiro “pendura” da viagem vai a co-piloto, carregando ao colo um plasma trazido pelo condutor da Nicarágua. Mal consegue mexer-se. Vendo bem as coisas, não temos motivos de queixa.
Uma ‘lata’ chama a atenção em qualquer lado. Quando vai apinhada, ainda mais. Então se transportar dois estrangeiros…
Foram três os controlos de polícia em que tivemos de parar. Em nenhum houve problemas de maior.
Seguimos a toda a velocidade. Começámos a ouvir barulho estranho. A panela do escape do carro cedeu. O rechonchudo condutor sai. Estira-se no chão. Tenta resolver. Siga…
Pouco depois, nova paragem. Afinal não está bom. “Relaxem, já lhe trato da saúde”, tranquilizou-nos. Não temos nada cortante para o ajudar. Mas há vidros no chão de um acidente. Condutor pega num e corta o tubo. Com um pano dá uns nós. Não chegamos a entender bem o que fez. Esfrega as mãos. “Já está”, sorri. Que mais nos irá acontecer?
Temos de insistir para que perceba que tínhamos chegado ao cruzamento pretendido. 10 dólares cada um dos três passageiros. Despedimo-nos e desejamos as melhoras ao seu carro. E menos azares ao dono: no mesmo dia já tinha sido multado na Nicarágua. Tudo porque supostamente a esposa teve um problema que o obrigou a esta viagem-relâmpago de volta à Costa Rica.
Sem tempo para respirar, apanhamos um colectivo para Tilaran. Diz-nos que preço são 2.000 colones, mas descobrimos que são apenas 1400. Pedimos troco. Contrariado, acede.
“O último autocarro já saiu para Monteverde. Agora só amanhã de manhã”, informam-nos dois prestáveis polícia. Que nos desaconselham a pedir boleia. “Vão de táxi ou amanhã no autocarro das 07:00. Evitarão uma boa probabilidade de serem assaltados”.
Vemos dois pequenos ‘hotéis’. Mas afinal não queremos ficar aqui. Negociamos táxi. Já confusos com tantos câmbios, percebermos que fizemos mal as contas. Vamos pagar o dobro do que desejamos. Demasiado tarde. Nada a fazer.
São pouco mais de 40 quilómetros. Nem 10 depois de iniciarmos a viagem, o caminho torna-se tão rude que compreendemos o porquê da hora e meia necessária para o fazer. O jipe queixa-se por todos os lados.
Há um barulho estranho no carro. O dono não se apercebe. Avisado por dois outros automobilistas que tinha um problema. Pára. Roda dianteira direita desfeita. Tal como a jante. “Ainda ontem meti quatro pneus novos”, lamenta-se.
Deita-se no chão a mudar roda. Continua a chover intensamente. E a paisagem maravilhosa lá fora. Uma mistura do melhor de Trás-os-Montes com Alentejo e Alto Minho.
Finalmente, em Monteverde. Melhor, em Santa Helena. A três quilómetros do Parque que desejamos visitar. Ainda a tempo de chuvada no corpo quando estávamos a caminho do restaurante asiático que se revelou uma das melhores opções deste périplo pela América Central..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?