Soviet World

Europa Lituânia

  Caminhando pelo parque nacional Dzukija não nos limitamos a inspirar ar puro. Nem somente a usufruir de revigorante fauna e flora. Ou a perdermo-nos nos seus sinuosos pântanos. O arame farpado e as torres de vigia nos limites do parque indiciam algo mais. É o Grutas Park. Fica a130 quilómetrosde Vilnius e reúne as principais “estrelas” do regime soviético: Vladimir Lenin, Joseph Stalin e Karl Marx. Entre outros.
É um jardim com 86 esculturas de 46 diferentes autores. E exibe outras relíquias que simbolizaram as ideologias que mergulharam o país nas trevas durante longas décadas. Com repressão, assassínios. Deportações em massa.
A Lituânia sofreu – como outros – com a ditadura soviética. O trauma vai passando. A memória dos mais jovens está presa por um fio. Mas importa que persista. Que as gerações futuras entendam que houve um longo período de trevas.
Viliumas Malinauskas decidiu dar o seu contributo. Após o desmembramento da União Soviética, quis recolher o máximo de referências deste período negro da história da Lituânia. Foi assim quem recolheu e comprou largas dezenas de estátuas de Estaline e, principalmente, Lenine. Nomes obrigatórios do comunismo mundial. Boa parte dos artefactos estavam abandonados em locais dispersos…
O cenário que lembra o horror está a poucos quilómetros da tranquila Drunkinskai, uma “spa city”, e ao lado de mais um lago. Sereno. Descomprometido com a história.
Entre imponentes verdes, somos guiados por um passadiçoem madeira. Camufladainstalação sonora vai passando a música e slogans do regime. Até os pássaros os respeitam, em silenciosos esvoaçares.
Além dos suspeitos do costume, encontramos igualmente falsos heróis. Estátuas erigidas a supostos destacados protagonistas da revolução. Gente que não nasceu, mas existe.Em bronze. Comojovens mulheres comparadas a Joana d’Arc. Figuras mitológicas para inspirar um povo esmagado pela opressão. Por um regime que instigava o povo contra o povo. Dividia para reinar.
O Grutas Park ganhou o “Prémio Nobel da Paz… IG”, uma distinção-paródia americana que premeia anualmente dez acontecimentos invulgares ou façanhas científicas. O objetivo é “primeiro fazer as pessoas rir e depois leva-las a pensar”.
Aqui não rimos. Mas pensamos..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?