MASAI – Pureza desvirtuada…

África Quénia

Descíamos a cratera do Ngorongoro em direção ao Serengeti, quando decidimos parar para visitar uma aldeia Masai. Trata-se de uma tribo espalhada pelo Quénia e Tanzânia. Pela sua peculiaridade, dá fama a ambos os países.O natural ânimo cedo virou desconfiança quando percebemos que tínhamos de pagar. Não que ficássemos surpreendidos, mas sabemos quanto isso afeta o nosso imaginário.Julius, o motorista que se julga guia, fez o preço em 7.5 euros por “cabeça”, mas, a falar diretamente com o filho do chefe da aldeia ficou tudo selado pelos cinco. Sem discussão.As mulheres, enfeitadas, como que de árvores de Natal se tratassem (moda que ganha adeptas em Portugal), cantavam e dançavam, tal como os homens. Estes, com atitude mais viril e guerreira.Entrados na aldeia, fortificada com ramos de árvores, logo fomos desafiados a saltar mais do que qualquer um dos Masai. – “Quem o conseguir fazer, escolhe as mulheres que quiser”, incitou Lukas.
Sedentos de glória, Batista e Loureiro logo trataram de afiambrar umas Masai (Morais, mais comedido e já com uma “específica” debaixo de olho, registava tudo em imagem). Uma humilhação tão desnecessária quanto previsível… Posteriormente, Lukas separou o grupo. Um anfitrião para cada um dos visitantes. A explicação seria individual, no interior de uma casa Masai. As múltiplas curiosidades sobre os Masai não servirão para vos maçar (procurem no google), mas sempre ficam a saber que uma mulher vale umas boas 20 vacas. Se for séria, claro! Caso contrário, é troca direta: mulher por vaca. As casas são obviamente rusticas e uns míseros 15 m2 podem albergar até umas oito pessoas. O teto em bostinha seca: eficaz e já inodor. As vacas são seguramente a base das suas vidas, pois, além das trocas comerciais, dão a carne, leite e… sangue. São a base da sua alimentação.Tudo isto, claro, a confiar no que nos contaram. Nas “cubatas”, cada um dos zelosos Masai logo tratou de acabar com as explicações e passar à parte comercial.Colares que noutros lados custam uns 20 ou 30 cêntimos, ali valiam uns 15 dólares (uns modestos 10 euritos, ao câmbio do dia). Evidentemente, ninguém gastou um cêntimo.A visita à escola da aldeia é para turista “ver”. Inúmeras crianças semi-despidas sentadas ordeiramente com ar aborrecido. O quadro, preenchido a giz, tinha a primeira e óbvia lição, com os números até 10 em swahili e inglês, numa letra “desenhada” de fazer inveja ao melhor dos caligrafistas. Ninguém pediu para ouvir o brilhante inglês das crianças, seria embaraçoso desmontar a “farsa”.Surpreendente que nómadas dominem a língua inglesa, mas a necessidade aguça o engenho e os euros/dólares são sempre bem vindos. “Para comprar água, roupas e comida para a aldeia”, assegura Lukas. “Também, mas não só”, pensámos.No fim, mesmo sem donativos para a escola (livros e material didático que, obviamente, AQUI não usam), sobraram sorrisos e os desejos de um regresso próximo, com os sempre apetecíveis euros, dólares…Sem dúvida, os turistas estão a adulterar o “modus vivendi” deste nobre povo, que começa a perder a identidade a um ritmo avassalador. Noutras paragens, sobram Masai mais evoluídos: com as mesma roupa “nómada”, mas já com telemóveis de última geração, capazes de fazer inveja).
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?