Hard way to Mozambique

África Em Trânsito Fronteiras Moçambique Mtwara

O jantar foi ao entardecer. Privilegiamos a vista para mar. Saborear África. Sem pressas, horas depois fomos festejar Mtwara. Acompanhamos a animação. Enquanto durou. Quando se recolheu, fizemos o mesmo. Voltamos à empedernida habitação. Decidimos ser picheleiros. Resolvemos vários problemas. Lavatório & WC. Entre outros. Deixamos o quarto num brinco – aceitável para os padrões europeus. Ainda exibimos orgulho sorridente ao mostrar ao dono o que melhoramos na habitação. A mais pura indiferença na sua reação.
Madrugamos. Locomover-nos em África não deixa alternativa. Despertamos verdadeiramente após incontáveis curvas num acabado todo-o-terreno cujo chiar quase se sobrepunha à musica. De gosto e decibéis quase apocalípticos.
Estrada poeirenta. Fronteira. Finalmente.
Nem tivemos tempo para esticar o corpo, logo nos tentam vender serviços do lado de Moçambique. Todo o tipo. E cambiar dinheiro. Estamos preparados para o habitual sorriso “não, obrigado”. Ou não sairíamos dali.
A saída da Tanzânia foi breve. Mais do que o esperado. Foi curto o circuito até ao rio. A ideia era atravessá-lo a pé e de barco. Negociados alguns meticais (moeda de Moçambique), arranjámos alguns “voluntários” para nos carregarem as malas na lodosa travessia. Ajuda tão bem vinda quanto necessária.
Pelo leito do rio caminhámos uns 10 minutos. Depois instalamo-nos numa acolhedora pequena embarcação que metia água por todos os lados. Asseguraram-nos que não ía ao fundo, nem virava. Duvidámos de ambas as garantias. Chegámos sãos à outra margem. Sem qualquer animal a perigar a travessia.
Nova fornada de moçambicanos e tanzanianos lutava por nos dar boleia até Mocimboa da Praia, a perto de 150 km, novamente por caminhos de qualidade… enfim…
Fizemos sete quilómetros na traseira de uma pick-up até ao posto fronteiriço. Na véspera, ainda na Tanzânia, garantiram-nos que na fronteira de Moçambique íamos ser tratados como príncipes, pois também falávamos português. Na prática, ficámos a saber que os tanzanianos não sabem o que dizem. Da pior forma.

(Viagem a África, 2009 – africatrio.blogspot.com)
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?