Até Pemba

África Moçambique

Uma vez que íamos arrancar às 04:00 e se tratava de um sábado à noite, prescindimos de estadia. Estávamos curtos de tempo e Mocimboa da Praia não requer atenção “extra”. Um motorista de “machibombo” (autocarro) convenceu-nos a viajar na sua companhia, um bom pretexto para logo ali nos livrarmos das malas.
À hora marcada lá estávamos (passamos a noite num bar de palhota onde assistimos a um Sporting/Benfica com muitos rigorosamente trajados com as cores dos rivais da segunda circular e ainda do FC Porto) e uma hora depois ainda percorríamos as ruas da distante Mocimboa da Praia à cata de mais clientes para a viagem que nos deveria deixar em Pemba às 10:00. Deveria…
Com o machibombo completamente apinhado, pusemo-nos a caminho. Não tardou, e já estávamos imóveis na primeira paragem fora da vila. Um dos dois cobradores luta freneticamente para chegar à porta e, cabeça de fora, grita para a multidão lá fora: “Só cabem cinco. Vinte no máximo!”. Contas não serão o seu forte.
Imaginem o resultado…
Mesmo com largas dezenas de amalgamadas vidas nas mãos, o motorista (estive no mesmo bar que nós a emborcar cervejas até hora de partir) estava apostado em mostrar qualidades de piloto de rally. Ziguezagueava a velocidade louca pelas “estradas” de uma das zonas mais remotas de Moçambique. Na qual, mesmo com pouco tráfego, sobram relatos de acidentes fatais.
Entre os vários sustos, houve um que nos cortou a respiração. Tudo poderia ter acabado ali. Uma manobra louca de última hora, a uns 120 km/h num local onde nem deveria ir a 50, acabou por evitar a tragédia e colisão com outro veículo. Teremos sido os únicos a ficar… pálidos.
Subitamente, a mala do Batista que há muito ferve em cima da proteção do motor (dentro do machibombo, bem antigo) começa a fumegar. Uns quantos gritos e estamos parados. Num raio de 50 metros, dezenas espalham-se pela paisagem. Ninguém desespera. Cada um encontra procura sombra e espera. Pacientemente.
Ambos os motoristas fazem como vêm fazer: deitam-se pachorrentamente na berma. Até que o Batista os aborda: “Companheiros, se ninguém for arranjar o machibombo, de certeza que ele não começará a andar sozinho”.
Trocam olhares e ar sisudo. Contrariados, deitaram mão à obra. Em minutos, uma amalgama de peças do motor espalhadas pela “estrada”. Esperavam-nos em Pemba. E não tínhamos como avisar do atraso. Uma hora depois questionávamos um dos membros da tripulação. “Quanto tempo até voltarmos à estrada?”. Olha-nos e, sem a mínima certeza do que dizia, responde-nos, em tom de pergunta: “Cinco minuto?”.
Rir seria redundante. “Tenta outra resposta, essa não será possível”. Ainda mais temerária, nova resposta ao calhas. “Duas hora di tempo?”. Foram quase quatro…
De volta ao pó, voamos ainda com maior intensidade. Não foi surpresa que, novamente, tivéssemos a má experiência de ver o machibombo ficar sem gasolina, a uns escassos 20 km da “meta”. Nova seca até que, finalmente, Pemba se anunciou. A placa da cidade orgulhosamente rodeada de enorme lixeira a céu aberto…
(Viagem a África, 2009 – africatrio.blogspot.com).

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?