Inesperadamente, casado

Ásia China

Yangshuo-Guilin-Longsheng faz-se em transporte público? Sim. Claro. Então porque pagar mais em bus turístico? Para não perder um dia em viagem. Partindo as 07:00, ainda se aproveitaria meio dia nos terraços de arroz. Plenamente justificada mais uma manhã madrugadora.
Antes de chegar à desejada aldeia Ping’an, para nos perdermos nos infindáveis terraços de arroz, uma paragem “técnica” em aldeia típica das mulheres da minoria étnica Yao. Sem dúvida, um erro de casting.
Sete euros para um espectáculo que muito deixou a desejar. E que não pagam a paciência sem fim para lidar com as senhoras que não nos largam. Postais. Bolsas. Cintos típicos. Tirar fotos. Tudo é pretexto para chatear o turista. E, neste caso, a palavra turista é a mais bem empregue.
Novidade aterradora (e que juro não repetir): seguir uma bandeirinha ao alto. De uma guia que fala um inglês praticamente imperceptível (a alternativa era ficar no bus uma hora à espera do restante grupo).
“Salvos pelo espectáculo”, pensamos. Show começa. Morno. Pedem cinco voluntários. Carlos costuma ser o primeiro. Estranhamente, fica colado ao banco. Subo com Jonathan. Somos levados para os bastidores.
Um “chapéu” na cabeça e um laço em torno do corpo. E a obrigatoriedade de oferecer uma pulseira (paga) à noiva previamente escolhida por cada um de nós. Como num mercado de carne. Mais cinco euros. Para lhes fazer o favor de participar no espectáculo…
Ritual envolve novas Yao e outras mais experientes. Trajadas tipicamente. Todas aparentam linda voz, mas nem por isso muito bem afinadas. Longo cabelo (é o que as caracteriza) sabiamente recolhido em penteado típico. Cabelo que pode chegar aos dois metros.
Dependendo da forma que se apresentam visualmente, enviam uma mensagem: solteira, casada ou casada e com filhos.
Levo encontrões com o rabo. Sou beliscado. Carrego a noiva às costas. Canto para ela (e toda a ‘sorridente’ plateia) em português. Não humilhei a pátria. Ninguém terá reconhecido a língua…
No fim, parece que estou casado. O destino tem destas coisas…
Depois da noiva agradecer a gentileza da escolha, já nos bastidores, despeço-me para volta final à aldeia. Belas casas em madeira. Animais vivem no rés-do-chão. Cozinha e ‘sala’ no primeiro. Quartos no andar de cima.
Uma vara deixada junto à janela pode encorajar alguém a seduzir jovem solteira. Esse é o sinal para os candidatos.
Já não há paciência para as vendedoras. Peritas, também, a estragar fotos. Apressar passada para o autocarro. Estamos a cerca de meia hora de Ping’an. Os arrozais e a montanha esperam-nos….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?