Surpresa na montanha

Ásia China

As vermelhas amoras silvestres que sorridentemente nos deram a provar traziam outras intenções. As quatro jovens cinquentonas Yao (simpaticamente, dar-lhes-íamos, seguramente, mais uma década) queriam mais: propuseram-se guiar-nos na montanha. E fazer-nos o almoço.
Já levávamos mais de duras horas de dura caminhada. E estávamos ainda a mais uma da sua aldeia. Caminhamos sem compromisso. Jonathan ia traduzindo as conversas com as inesperadas e simpáticas avozinhas-guias.
Já na aldeia, é escolhida a casa de uma delas. Só o nosso amigo tem fome, mas, em torno da lareira e do wok, logo ficamos seduzidos a experimentar as iguarias que nos prepararam. Acompanhadas de chá com ervas locais.
Estamos na cozinha das nossas “avós”. Simples, mas convidativa lareira central que nos aquece além da alma. Pequenos bancos nos quais nos espraiamos em círculo perfeito. Pouca luz e frio, que intensificam as sensações de plenitude rural.  
Queremos saber delas. Da sua vida. Da comunidade. Dos jovens que procuram futuro fora da aldeia. Prestáveis e comunicativas, bombardeiam-nos com questões semelhantes. E estranham ninguém ser casado. Ali, ninguém chega aos 20 solteiro…
Palavras chave em inglês. Comunicação flui. Surpreendentemente, dançamos. Rimos. E somos “vítimas” da ousadia das experientes donzelas. Chegaram a sugerir – sem que entendêssemos muito bem o contexto – que calças baixassem. E perderam-se em gargalhadas nas duas vezes em que maliciosamente o fizeram. Em vão, note-se.
Somos beliscados, como manda a boa tradição… quando estão interessadas num homem. Gabam a nossa “exótica” beleza. E não conseguem dizer “Rui”. Fazem malabarismos com a boca e lábios, mas nem perto chegam pronunciar esta “estranha palavra”.
Nesta aldeia sem acessibilidades – a estrada “transitável” mais próxima está a duas horas a pé – maravilhamo-nos com as casas de madeira. O pacífico silêncio. Os animais à solta…
Estamos inebriados com o momento. E muito atrasados. Corremos o risco de ficar em plena acidentada montanha, sem luz. Perdidos. Hora de partir.
Após pagarmos, principescamente, o almoço, insistem última vez para nos guiarem. Recusamos. Surpreendidos com uso de telemóvel. Ficamos com contactos para voltarmos na época festiva. Mãos acenam até sairmos do seu raio de visão.
Já passamos o tempo total estimado para a caminhada (quatro a cinco horas) e ainda estamos a meio. Hora de acelerar. E continuar a contemplar os envolventes relevos. Sem mais testemunhas, além de alguns raros típicos locais.
Quando temos dúvidas sobre o caminho, recusam-se a ajudar-nos. Só o fazem se forem nossos guias. Foi assim que várias pessoas nos desapontaram.
Chegados ao destino, não há transporte. Já estamos atrasados.
Uma pequena carrinha a partir. Abordamos condutor. Por um euro a cada um, conduz-nos meia hora. E deixa-nos em ponte no meio de nada. Com a promessa de que haverá um autocarro. Errada.
Estamos a seis quilómetros da entrada do parque natural onde se inserem as aldeias que visitamos. Subida a pique. E curvas sem fim. Ofegantes no primeiro quilómetro e tal. Subitamente, luzes de um carro. Atravessamo-nos na estrada. Regressaremos a Ping’an em grande estilo, em jipe a cheirar a novo. E com o corpo a suplicar por descanso….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?