A Grande Travessia

Ásia China Filipinas

A chuva batia na janela a ritmo confuso. Ora suave, quase gentil, ora bruta, parecendo que levará tudo à frente. A cabeça que repousava no vidro no bus a caminho de Guilin denota algum cansaço e o respeito pela jornada que já estava em curso.
Jonathan despedira-se de nós no início do dia. Enquanto trocávamos, apressadamente, de bus. Ele seguia para norte. Mais frio. Para nós, estava na altura do sul. Calor.
Descoberta a estação de comboios de Guilin, guardar mochilas e quatro horas para explorar a cidade. Em dia invernal. Começamos pelo longo mercado subterrâneo. Olham-nos com surpresa. Impossível passar incógnitos. Distribuímos sorrisos.
Fartamo-nos rápido de mais do mesmo. Táxi rumo ao centro. Percorrer, calmamente, a chuvosa pedonal.  Contemplar a animação de cidade, surpreendentemente jovem.
Estreia absoluta: ensopado de frango. Com batata e arroz misturados. E legumes. Para NÃO variar, pouca substância além dos habituais ossinhos. Imitação de pastel de nata com muita saída em pastelaria singular. Not bad, mas nada a ver com o nosso.
São 17:00 e já estamos de volta à estação. Prevenidos para viagem de 12 horas. Estreamos as famosas ‘noodles’ empacotadas. Meio litro de água. Esperar cinco minutos. Já está! Um quente sabor a… nada.
Entretemo-nos com o primeiro filme na viagem. No pequeno notebook. Até que a tardia chegada dos nossos vizinhos, que imediatamente assumiu posição de dormir, nos faz, por gentileza, seguir o exemplo.
A noite foi tranquila. Onde em 2008 vira conversas animadas, até entre estranhos, agora apenas se pode contemplar chineses viciados em smartphones. Como em cada vez mais lugares do planeta. Cada um no seu mundo. Toda a gente munida do seu equipamento. Novos e velhos. Assustador.
Em Cantão optamos por continuar a epopeia de comboio. Até Shenzen, ao lado de Hong Kong. Apenas umas duas horas em quase alta velocidade.
Após pequeno almoço, inicio da aventura na fronteira. As chatas formalidades para sair da China para entrar na… China. Tal como Macau, Hong Kong tem regime administrativo especial. Até os chineses do “continente” precisam de visto para la entrar.
Quatro euros e uma hora de metro depois, estamos no centro de Hong Kong. Com cinco horas para tomar-lhe o sabor. Voltaremos mais tarde. Será daqui que regressaremos a Portugal.
Cidade moderna. Mais cara que resto da China. Com vários encantos. Que ficam para contar quando voltarmos.
Para o aeroporto são 10 euros de metro. A infraestrutura é gigantesca. Moderna.
As hospedeiras de bordo vestem desportivamente, parecem e agem como adolescentes. Já a voar, vemos milhões de luzes de Hong Kong.
Três horas depois, estamos em Cebu, Filipinas, na zona onde morreu Fernão de Magalhães. Ao serviço dos espanhóis…
O táxi nas partidas é mais barato, asseguram-nos. Assim fazemos. Deixa-nos num pardieiro. Pelo próprio pé, vamos procurar alternativa de estadia. Resolvido em vinte minutos.
Há famílias inteiras a dormir do na rua…
A noite tem muita animação. Até tarde. A cidade parece não descansar.
Entre “Jeepney” e “tricycle” chegamos ao porto na manhã seguinte. Temos sorte. Barco mesmo a sair. Muitas formalidades. Demasiadas. Nenhuma com muito rigor.
Oração no ecrã TV antes da partida. Agradecemos ao Senhor. Irá ser sempre assim, nos barcos.
Menos de duas horas depois, estamos em Bohol. Recusamos táxi e voltamos ao amigo jeepney. Meia hora até Alona beach. No nosso bungalow. Finalmente, estamos onde queríamos….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?