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Explorar Siquijor

Ásia Filipinas

“É de mota que podem conhecer melhor a ilha. Leva-vos a todo o lado. Como e quando quiserem”, assegurou-nos Jessa, a simpática dona do JJ. Por cinco euros, temos direito a usufruir todo o dia de um veículo de duas rodas. Ficamos com dois. Estarei só no asfalto, enquanto Carlos e Fernanda partilham mais 25 cc de potência.
Vamos sem carta de condução. E, ao domingo, não precisamos de capacete. “Se a polícia vos mandar parar, digam que estão no JJ”, sorri Jessa. Na segunda-feira será menos tolerante e “obriga-nos” a levar capacete. Em Siquijor não há pressas. Evitam-se as velocidades loucas. Mas nada como estar prevenido. O depósito é atestado com gasolina em garrafas de coca-cola. É assim em todo o lado.
O dia leva-nos inicialmente a Ytaya e Lazi. Na primeira paragem, deslumbramo-nos com igreja setecentista. Em atividade, mas em ruínas. A estrutura interior não durará muito tempo. Não sendo religioso, não deixa de me impressionar. Das moradias do Senhor, das que mais me cativou até hoje. Talvez pelos inúmeros ninhos no seu interior. O constante chilrear naquela tranquilidade e sobriedade de arquitetura não nos deixa indiferentes.
Do lado o oposto, um colégio em edifício pouco mais moderno. Exploramo-lo como se fosse a nossa casa. Até que D. Maria surge da penumbra da cozinha que serve a cantina.
“Estou aqui há 32 anos. Não tenho salário. Durmo aqui e cozinho. Fui inspirada por palavras sábias e decidi ficar. Até hoje. E não me arrependo”, conta, num vigor impressionante para quem completará em breve 76 anos.
Quando sabe que venho de Portugal, surpreende-me com uma música. Canta-me a que na história ficou dedicada a Fernão de Magalhães, que, ao serviço dos espanhóis, reclamou as Filipinas para a coroa.
Vou buscar a câmara de filmar. Olha-me sorridente. “Já posso repetir?”.
Mais tarde cruzamo-nos com assembleia popular. Dezenas em precária paragem de autocarro. Ao centro, duas senhoras com livro de contas, tipo com lista de mercearia. Com referencias aos empréstimos feitos a cada um. Hoje é dia de pagamentos. E de contrair mais dividas, para fazer face ao dia a dia.
Recebem-nos com humor. Até nos cantam. E continuam com a função. Aqui, neste meio pobre, todos sabem quanto deve cada um. Não há segredos. E sobra entreajuda.
Na povoação seguinte, apenas encontramos um espaço a que se pode chamar restaurante. Mesas comuns, mas quatro espaços diferentes a vender comida. Estaremos a 50 metros do mar, mas não há pratos de peixe. Algo que, surpreendentemente, se repete por toda a ilha. Os cozinhados de carne estão frios. E com aspeto mais do que questionável. Saboreamos o repasto como se das melhores iguarias se tratasse.
Somos avisados para os “larápios” nas lagoas que embelezam Siquijor. Numa delas, subimos até à terceira cascata no nosso percurso. Partilhamo-la com cinco crianças. Que receiam os elementos masculinos e perdem-se de curiosidade com a Fernanda. Duas horas cristalinas.
Os acenos e sorrisos anónimos continuam e guiam-nos, desta vez, até à praia. Paga. Mais um banho retemperador. E horas de sair. Temos pressa de apanhar o por do sol no JJ. Jessa tinha-nos prometido magia. E não nos defraudou.
O astro rei desmaia lentamente sobre Apo Island. Foi cegando a luz e libertando infindável palete de vermelhos, laranjas e amarelos. Lilases. Impõe sereno silêncio a todos os que, impressionados, estavam hipnotizados com a sua magia.
Sábado à noite há concerto. Prometem-nos festa. O caminho faz-se caminhando. Subitamente, apagão geral. Toda a luz se vai. E é esplendoroso céu estrelado que nos guia até San Juan.
Afinal, a festa não é aqui. Teremos de caminhar mais 300 metros. E outros 500. E mais alguns. No fim, não terão sido menos de 1.500.
O palco está montado. No ringue da escola. A banda já lá está. À luz de vela. Cá fora, três pequenas barraquinhas de comes e bebes. Com espetadinhas e bolinhos.
“Se a luz voltar, há concerto. Se não voltar, nada feito”, dizem-nos, resignados. Quase com ar de que não faz diferença. Sabemos que estão habituados às contrariedades energéticas. A música acabará por não se ouvir. O apagão arrasta-se até de manhã.
No já cansativo regresso, um jovem traz cobra de metro e meio presa a um pau. Quando nos mostra a caçada, que vai ofertar ao amigo, a esguia criatura já parece sem vida.
No JJ, somos reconfortados com as benesses de um gerador. Há música ambiente. Entretanto substituída pela de violas e vozes locais. Misturadas com as de viajantes.
Forma-se círculo na praia. As estrelas continuam ali. O mar sobe até quase aos nossos pés. A lua reflete nas suas águas. Siquijor a entrar na pele….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?