Mudança de planos

Ásia Filipinas

O tufão trocou-nos as voltas. No dia em que era suposto voarmos de Cebu para Hong Kong, estávamos ainda retidos em Siquijor. A natureza fazia das suas e cortou com qualquer ligação marítima da ilha. Restou-nos confiar na sorte e mudar a reserva para dois dias depois. Certo era que teríamos de abdicar de Macau. Sobrariam apenas 24 horas, para Hong Kong.
Fomos no barco noturno. Partiria às 19:00 e deixar-nos-ia em Cebu, às primeiras horas da manhã, após escala em Bohol. Autorizados a permanecer no ferry até às 06:00. Assim foi. Nada a fazer na baixa antes dessa hora.
Cama e ar condicionado. O luxo que nos ofertamos. Open space com uns 200 beliches. Temores infundados: ninguém ressona. Ou demasiado cansado para o perceber.
Um giro pela apinhada zona exterior. O calor não esmaga, mas aperta. Imensa gente. Demasiada tralha. Tudo serve para distrair. A vida continua. E move-se, em ferry em câmara lenta.
Vemos filme. Recolhemos inúmeras vezes os pés. Na parte de baixo do beliche. Querem passar. Para o fim da película, já poucos o fazem. Muitos já dormem. Decidimos fazer o mesmo. Vamos ficar a dever horas à cama.
O dia acorda preguiçoso. Os primeiros raios de luz invadem o horizonte. Mochila às cotas e seguir caminho. O forte de San Pedro é o destino.
Primeira fortificação espanhola em solo filipino. Quarto décadas após a morte de Fernão de Magalhães nestas paragens, às mãos do rei indígena Lapu Lapu, o conquistador Miguel López de Legazpi foi mais bem sucedido do que o português e erigiu a fortificação. Dada a urgência, começou por ser em madeira. Foi sendo reforçada. Hoje em dia, em zona nobre, é dos principais pontos de interesse de Cebu. Alberga exposição sobre a sua história e é, frequentemente, palco de receções oficiais.
A febre dos casamentos continua. Até no forte. Vemos dois futuros casais com empenhadas equipas de produção a tirar fotos. Das mais dengosas, caricatas e invulgares possíveis. Um dia terei de ver o resultado destas sessões.
A pé, chegamos num par de minutos à basílica de Santo Niño. Imagem do menino Jesus oferecida por Fernão Magalhães a Rajah Humabon, um dos reis tribais, e sua esposa, em 1521. Converteu-os ao catolicismo. E a prenda era sinal da “união” com Espanha. A imagem sobreviveu a um grande incêndio em 1565. E, por isso, ganhou proeminência tal que, até hoje, é dos objetos mais adorados nas Filipinas.
A basílica está cheia. A manhã avança. É dia da semana, mas o complexo está com intensa vida. O bispo fala. Em espaço exterior. O “rebanho” afasta-se do sol e escuta-o nas sombrias laterais. E dentro da igreja, fixando o púlpito onde ninguém está. O sistema de som leva a mensagem a todo o lado. Não é necessário o cara a cara.
As velas aqui são grátis. Basta pegar numa e acender. Fácil. E a fila para prece de três segundos com Santo Niño terá mais de 50 metros. Avança vagarosamente.
Detenho-me a ouvir a mensagem do sacerdote. “O país está de luto. Um tufão levou, mais uma vez, milhares de vidas. E destruiu parte do país. Sinto que entre vós há muitos que duvidam da existência de Deus. Que isto não deveria ter acontecido. Mas não deviam questionar-se. A prova que Deus existe, é que estamos hoje aqui”. Chega. Um sermão destes, sem pequeno almoço, prejudica gravemente a saúde.
Cá fora, destaque para uma réplica da primeira cruz deixada por Fernão de Magalhães nas Filipinas. Muitos devotos para reza rápida. E deixar uma velinha. Amiúde, mulheres fixam a cruz e  cantam lenga-lenga de homenagem. Cantado é o termo certo.
Precisamos de internet. “Só em grande centro comercial. Aqui, na baixa, não vai conseguir”. O nosso último jeepney leva-nos ao destino. Na loja da AirPhil, confirmamos o novo voo para Hong Kong.
Relaxamos. E somos “roubados” no preço do almoço. Paciência. Vingamo-nos em suculento gelado. E seguimos para o aeroporto..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?