“Malditos” BUS

América do Sul Colômbia

Um destes dias recusamo-nos a andar de autocarro. O que deveriam ser viagens tranquilas, de pura contemplação e relaxamento, transforma-se, invariavelmente, num manancial de histórias – pequenas e grandes – que nos sentimos impelidos a contar.
Saímos da homenagem a Simón Bolívar diretos ao terminal de transportes. Três minutos, contados, de ar condicionado que valeram os dois euros da efémera corrida de táxi.
Prometido um bus direto. Até Cartagena das Índias. Até foi. Direto a partir do momento em que encheu. Até lá, paragem em todos os locais possíveis e… desaconselháveis.
Ao longo das 4:30 horas de viagem – que derraparam facilmente para as 5:30 – sobraram vendedores de todo o tipo de snacks a entrar no bus a apresentar a odorosa mercadoria. Não pagavam bilhete. Agradeciam com bebida ou comida. Ao motorista e cobrador, claro. No fim da jornada, cada um já com volumoso um saco de víveres.
A tarde passeia-se tórrida e demos vivas pelo ar condicionado. Bom, a felicidade durou até que o exagero do refresco nos leva a bater o dente. Compulsivamente. E suspirar pela saudosa sauna do ambiente exterior. Há algo de errado com os ares condicionados na Colômbia. Algo não funciona. Mesmo!
Seguimos a costa e por nós desfilam fantásticas praias desertas. Pelicanos e garças. E outras aves exóticas cuja identidade desconhecemos. Homens em tronco nu a pescar. Sem barco. Na zona em que as ondas morrem. E vende-se peixe e todo o tipo de mariscos ao preço da chuva. À face da estrada.
Brigada de trânsito manda-nos parar. Todos saem. BI’s locais em ordem. Falta ver os dois tugas. Zé Luís despachado em dois tempos. Passaporte a expirar, tirou um novo e este foi o primeiro carimbo. No meu, página a página. Lentamente. A tentar perceber de onde eram os múltiplos carimbos.
Acabou a tarefa e não viu o da Colômbia. Fez essa observação. Com ar severo. Pergunta por onde e quando entrei no país. Disse-lhe que viemos juntos. Peguei no passaporte. Encontrei o carimbo.
Desejo de boa viagem. “Y que Diós vos bendiga”.
Shakira não está na sua agitada Barranquilla natal. Felizmente, só de passagem andamos na sua orla. Na confusão habitacional, não na sedutora cantora.
Via com quatro faixas, duas para cada lado. Senhora idosa empurra filha em cadeira de rodas. Não há condições para deficientes motores se deslocarem. Nem ao longo nas vias, nem nos apinhados transportes públicos. É obrigada a ir no caótico trânsito entre barulhentos e poluidores carros e autocarros. Surreal.
Já atrasados. Toca a seguir.
Pouco depois, autocarro abranda. Vê-se homem aflito a pedir ajuda. Metros à frente, um cavalo terá fraturado a perna. Puxava carroça carregada. Não há outra solução além do abate.
Animal, em visível pânico, tenta levantar-se. Desesperadamente. Parece que adivinha o destino. Não consegue sair do chão. Doloroso qualquer cenário de animais em sofrimento.
O filme de ação termina. Mudam-no por DVD de pretenso humor. Não cola. Otários a fazer de parvos. Ou palhaços a julgar-se humoristas. Ainda estamos na dúvida.
Preces ouvidas. DVD mudado. Por concerto. Em casamento. Vídeo amador. Pior. Suplicamos pelo regresso das hilariantes piadas. Pleeeeaassseeeeeee!!!
Cobrador em namorisco nas escadas de entrada. Não liga ao nosso desespero.
Confusão total lá fora. Estrada esburacada. Centenas de autocarros, carros, motas, animais, pessoas… tudo amontoado num cenário apocalíptico.
Terminal de transportes. Cartagena das Índias..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?