“Doce” & “pacífico” regresso a casa

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As doces memórias de duas fantásticas semanas ainda se passeavam felizes pela mente quando chegou o primeiro choque. Era o duro regresso à realidade. Um “murro” no estômago. Seguido de vários outros.
Fila interminável no aeroporto. Vou espreitar. Sim, é mesmo da Ibéria (a pior companhia do Mundo). Dois voos para Madrid atrasados. No meu caso, mais de três horas. Das 20:20 para as 23:30.
Tentamos ligar à Chela para avisa-la que Zé Luís chegará a “casa” um pouco mais tarde. Não atende. Uma e outra vez. Mistério… Mais tarde percebemos que tínhamos copiado mal o seu número.
Face ao atraso no voo, sei que perderei a ligação para Vigo. E que a próxima já me deixará sem transporte público da Galiza para o Porto. Além do impensável táxi.
Tento, por isso, mudar a ligação. Vir diretamente para o Porto. Dizem que não o podem fazer em Bogotá. Nem no apoio ao cliente, nem no check-in me deixam fazer essa transferência.
Insistem se é mesmo isso que quero. Fazer o check-in apenas até Madrid. Isso vai obrigar-me a um moroso processo alfandegário, recolha de bagagem e novo check-in para o destino final. “Despachar já tudo para Vigo seria bem mais fácil e cómodo para si”, insistem. Também eu o faço. Madrid. Apenas.
Jantamos no aeroporto. Palavras da ordem. Um até já. Fotos da dupla para a despedida. Zé sem saber se Chela o espera. Eu sem imaginar o que viria depois.
Tudo normal até nova revista de segurança para a sala de embarque. Sala cheia. Sistema raio-x pára com a minha mochila no interior. Não entra mais ninguém. Espaço lotado. Dezenas de leques. Rostos rubros. Passa uma hora. A segunda a terminar. Chegam paramédicos para assistir alguns passageiros que se sentem mal. Há desmaios. Não havia ar condicionado.
Já me tinha safo, pois, com desculpa de conveniência, saí da sala. Preferi repetir os procedimentos de segurança e estar calmamente sentado na sala contígua.
Embarcámos com duas horas de atraso face à alteração anterior. Cinco no total. Passageiros saturados. Todos tentam dormir. A Ibéria, sensível à situação, acorda toda a gente às 03:00 para servir jantar. Ainda por cima, o pior alguma vez experienciado em voo. Petisco levemente e tento dormir.
Nem duas horas depois, desperto com o sol. Vai começar o filme. Pego no auricular. Não tem som. Não funciona. Só a mim!! Até que percebo que… só a TODOS! Em todo o avião, ninguém tinha acesso ao áudio. Mesmo assim, vou acompanhando. Eu e outros impacientados por cinco horas de seca mais 10 horas de voo sem nada melhor que fazer. Filme fácil de seguir. De tirar a ideia. Começa a ficar interessante. Desligam o filme a meio e c’est fini. Sem explicações. Sim, a Ibéria não existe mesmo.
À hora do já desejado almoço, servem o mísero pequeno almoço. Enfim…
Saltamos para Madrid. Apoio ao cliente com fila ENORME. O nosso voo não foi o único da Ibéria a ter problemas. Espero, impacientemente, duas horas até ser atendido. Após confusão entre filas. Bocas trocadas entre gente que apenas quer chegar a casa.
Digo-lhes que a conexão a Vigo me deixa sem transporte para o Porto. Peço-lhes troca de destino. Surpreendentemente, não colocam problemas. Mas querem enviar-me apenas no dia seguinte, de manhã. Fazer-me descansar em hotel. Digo-lhes que não. Que tenho compromissos inadiáveis na manhã seguinte. Insistem. “45 minutos daqui até à partida do voo é missão impossível”, asseguram-me, com ar condescendente.
“Faço questão de tentar”, insisto.
Procurar a saída, passar pela zona alfandegária, descer para apanhar metro entre terminais, procurar mala no tapete, sair sem nada a declarar, subir para o terminal das partidas, novo check-in e caminhar 18 minutos (tempo estimado nas indicações do aeroporto) para o terminal “K” era a missão impossível.
Corri com mochila às costas. Tudo “bem” até já não haver referencia no ecrã quanto às bagagens do voo proveniente de Bogotá. Ofegante, tiro dúvidas com polícia. Correr para sala 11 da Ibéria. A mala também ainda não tinha sido lá entregue. Dizem-me para procurar no tapete 1. Encontro-o. Não vejo a minha bagagem. Apetece-me partir tudo. Instantes depois, na curva do tapete que ainda rola, começa a desenhar-se um objeto tinto e preto. Não perco tempo a celebrar.
Subo dois andares. Procuro check-in Ibéria. Passo sob fitas de proteção. Para poupar míseros segundos. Mas não ultrapasso ninguém na curta fila. Segurança insiste que tenho de sair e voltar a entrar. “Pelo lugar adequado”. Mando-o pastar, educadamente, em espanhol. Insiste, respondo-lhe em português. E não me movo. Funcionário da Ibéria, compreensivo, entendeu a situação. Pegou no meu bilhete e chamou-me ao lado.
“O voo já está fechado. Lamento”.
Mas eu tenho bilhete…
Diz-me para seguir com mala e mochila. Assim faço. Passa tudo no raio X, menos as minhas botas. Descalçar e verificar que tudo está bem com o desgastado par que sempre me acompanha nestas aventuras.
Avião já deveria ter fechado… atrasou… ainda ninguém tinha embarcado.
Trio maravilha que já se tinha disponibilizado para ir a Vigo é avisado. Em telefone que me extorquiria três euros para escassos segundos. Bastaria reencontro no Porto.
Na Invicta, constato que o cadeado foi cortado e a mala violada….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?