‘Città alta’

Europa Itália

A morada do Hostel não estava completa. Varri a rua duas vezes. Em vão, até uma alma me indicar o lugar. Campainha. Subo ao terceiro andar.
‘Sinto muito, mas não tenho qualquer reserva. E já tenho todos os quartos ocupados’, disse-me o simpático responsável.
Pouso a mochila. Decepcionado. ‘ Mas vou ajudá-lo’, acrescentou, sem dar tempo a potencial desanimo.
Oferece-me quarto ‘em conta’ na casa da mãe. ‘É barato, mas fica fora da cidade. Numa área verde muito, muito bonita’.
Agradeço, mas só tenho duas noites e quero estar no centro. Liga de seguida para um outro Hostel. Ultimo quarto livre. Aceito. Mesmo  sendo completamente cor de rosa.
Cinco minutos depois, já nada carrego. Respiro o fim de tarde e a cidade está por minha conta…
Estou a dois passos da Via XX Settembre. A pedonal comercial. Já tudo fechado. Viro para a Piazza Pontida. Pela primeira vez páro. Os edifícios são majestosos. Têm história e arte. E pinta. Muita. Deleito-me em 360 graus.
Avanço feliz pela Via S. Alessandro. Deixo-me guiar por edifícios trabalhados. O transito condicionado ajuda a usufruir do espaço. Seguindo pela calçada, Vejo menus ricos. Batentes de porta trabalhados. portadas geometricamente atraentes. Igrejas com frescos formosos. Lojas em edifícios seculares.
O milagre económico pós II Guerra Mundial criou uma nova centralidade na parte baixa e plana da cidade. É aqui que estão os imponentes edifícios do estado. E os dos bancos. E residências que traduzem uma nova era.
Vou subindo a íngreme calçada e a arte acompanha o movimento. Em breve estou nas muralhas. Obra do poderio veneziano. A Republica que aqui governou do século XV à chegada de Napoleão. Recuperaram a cidade velha e amuralharam-na. 
Já no seu interior, contemplo a paisagem e vejo como Bergamo é bela.
Aventuro-me sem rumo na ‘città alta’. Parto da Piazza Mercato delle Scarpe. Ė aqui que chega o funicular que só mais tarde experimentarei. A central (e principal) via Colleoni recorda-nos toda a envolvência medieval. Que tem o seu esplendor na Piazza Vecchia, o coração da zona. Pintada pelos mais belos edificios. Durante séculos foi o centro político e  administrativo da cidade que teve a fortuna de ser pouco destruída na II Grande Guerra. Surpreendentemente, noite calma. Poucos turistas e locais. Imagino-a com mais vida. É lugar de magia…
O melhor de Itália também anda por aqui… Ando em becos escuros e sem saída. Perco-me amiúde em recantos únicos.
Sigo conselho e vou ao ‘circolino’. Prometeram comida boa e barata. Boa foi: scarpinocc dela nonna como ‘primi’, seguido de polenta com pernil de porco de sabor ao mais tentador rojão. Salada e um bom ‘rosso’. 27 euros…
A cooperativa enche e está na hora de recolher. Descerei a encosta por outro caminho. Continuarei de queixo levantado. Maravilhado. Passeio na feira do livro e recolho a ‘casa’. Cansado. A descomprimir. O inicio promete….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?