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Skopje

Europa Macedónia

Sair do aeroporto foi penoso. A “Anna” iria esperar ainda quatro horas para embarcar para Roma e eu estava ali, impotente. A expressão facial com que nos separamos dilacerava-me e nada podia fazer quanto a isso.O taxista pede os 20 euros da tabela para o centro de Skopje. O autocarro custa apenas 2,5 euros. Prefiro esperar as longas duas horas. Há um relvado soalheiro mesmo ao lado do terminal. Sem dúvida, está a chamar-me. Sinto o seu apelo. Relaxo sob um céu amigo. A raridade de voos na capital faz com que o autocarro de 25 lugaras não encha. Sendo que o último bus saíu há três horas. A entrada em Skopje podia ser mais bonita. É uma cidade da antiga Jugoslávia que não prima pela arquitetura ou beleza de formas. Pela limpeza ou esmero em cada recanto. Os edifícios são antigos. Boa parte mal tratados. E o terminal de autocarro onde fico não é propriamente convidativo.Logo assaltado por taxistas que me querem levar a todo o lado. Digo que vou seguir viagem e param de me chatear. Informo-me dos horários para os dois destinos possíveis que tenho para dali a dois dias. Vou também à estação de comboios, no piso de cima, mas é infraestrutura meramente fantasma. Apenas uma funcionária. O abandono total. Degredo. Os dedos de uma mão chegam para contar os comboios diários. Subo ao terminal. Nem uma pessoa para amostra. Vou pernoitar em casa de Zoya, uma couchsurfer de 50 anos com vasta experiência pelo mundo. Com todas as indicações em cirílico, melhor nao inventar. Negoceio o táxi e por dois euros chego onde pretendo.Sou atentido por Toru, um japonês que está há um mês em casa de Zoya. Ela da-lhe dormida e comida. Ele retribui com todo o tipo de trabalho, desde pintura a pichelaria. Ela quer recuperar o espaço para tentar abrir um hostel. A anfitriâ chega mais tarde. Está cansada. Desculpa-se por não nos acompanhar no jantar. Oferece-me dinheiro para irmos comer pizza. Recuso de forma veemente. Mas agradeço. “Hoje é por minha conta. O Toru tem sido excecional e tenho o maior dos gostos em convida-lo”, insisto.Chegar ao coração de Skopje é sempre a descer. Somente 20 minutos e estamos em frente a grandiosa estátua do immortal Alexandre, o Grande. Sem dúvida, o orgulho da Macedónia.Antes, paguei quatro euros por quatro grandes fatias de pizza e duas cervejas de meio litro que atacamos sentados na praça principal, onde toda a gente converge.Toru vai fazendo de guia. E contando-me parte da sua vida. Sente-se incompreendido no país e precisa abrir-se. Enquanto me diz que anda há dois anos a viajar, fazendo trabalho voluntário em troca de comida e dormida, vai-nos levando para o bazaar, na zona muçulmana da cidade. A entrada no novo mundo instiga-o a falar-me do que o prende a Skopje.“Combinei café com uma couchsurfer. Pela foto, vi que era manequim. Fiquei até com a ideia de que seria prostituta. Quando nos encontramos, vi que não era nada disso. Uma pessoa fantástica, sensível e que tem sido muito minha amiga. Na verdade, nutro sentimento especial por ela. E creio que sou correspondido”, confessa-me. O meu companheiro de caminhada, de 36 anos, está a 24 horas de deixar o país rumo a Londres, onde espera poupar 5.000 euros num mês (não é engano), para voltar mais uma temporada para perto da que o cativa.“Com esse dinheiro, já consigo abrir aqui um negócio. Pensei em fazer massagem shiatsu. Ate já tenho dois ou três locais para isso”, revela. A situação de “Anna” deixa-o mais nervoso, pois acredita que vai ter problemas para entrar em Inglaterra. Que lhe vão adivinhar as intenções. Garanto-lhe que não e que só tem de estar tranquilo e sorridente.A conversa arrasta-se tanto quanto a caminhada. É tempo de voltar. Chegamos já com a anfitriã a dormir. No primeiro andar, enquanto nós ficamos no rés do chao, onde duas irmãs macedónias vivem em quarto alugado. Fico numa divisão com dois beliches e outros tantos sofas. Tenho lençóis, coberturas e toalha. E fico virado para o quintal que Toru tambem cuida. Sossego quando, finalmente, recebo um mail de “Anna”. “Está tudo bem. Conheci um italiano muito simpático que me ajudou em Roma. Encontrei estadia e fomos jantar juntos. Amanhã vai-me mostrar a cidade e vamos jantar a casa dos seus pais. E mais tarde vamos a uma aula de tango. Vou ver as opçõess de voo para me juntar a ti o quanto antes”.Vejo que a vida lhe voltou a sorrir. Adormeço em paz….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?