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Ohrid, duplo Património Mundial‏

Europa Macedónia

Desperto sem dúvidas quanto ao destino. Ohrid é Património Mundial da UNESCO. Seria criminoso perder a cidade de eleição dos macedónios. Fica na margem do lago como mesmo nome e no verão quase duplica a população. São uns 100 mil em localidade encantadora no seu centro histórico. Zoya acorda com vontade de ginásio e dá-me boleia até parte do caminho. Subitamente, num semáforo, diz-me para sair e indica-me a direcção que devo seguir. Quase que se livrava de dois beijinhos de sentido agradecimento. Quase…Compro o bilhete de autocarro e apontam-me o cais oito. Durante meia hora estou só.  Desconfio do acerto da informação. Infundadamente.Os cerca de 150 quilómetros são pagos em paisagens que sobem de beleza à medida que nos aproximamos do destino. As montanhas ganham corpo e revelam-se intransponíveis. Daí as rotas nos mapas nem sempre lógicas. Motorista algo mal encarado. Vendem os bilhetes para os quatro lugares da frente, mas ele ocupa dois com o casaco e outros tantos com papelada. Já em viagem, pergunto se posso avançar. Reage algo bruscamente, mas em cinco segundos já estou no lugar que me é devido. Com privilegiada vista panorâmica.Benze-se sempre que passa por uma igreja, ortodoxa. E acelera quando a aldeia é pintada por orgulhosas bandeiras albanesas, inevitavelmente com Mesquita. Em diversas localidades exagera na imprudência. Sinto uma latente incompatibilidade interior naquele que conduz as nossas vidas com  suas mãos. Em Ohrid faço a pé os dois quilómetros do terminal até ao lago, sobre o qual toda a cidade gira. Encontro o Di Angello e marco cama em dormitório. Hostel com um ano, confortável, central e muito bem equipado. Serei o único hospede nessa noite. À patrão. O lago chama-me e é por aí que começo a deambular. Apenas depois de prematura salada grega e goulash. Servidas pelas meninas do restaurante anexo com mesmo nome. A Jerusalém dos Balcãs (a cidade de 50 mil e picos habitantes deve o nome ao facto de já ter tido 365 igrejas, uma para cada dia do ano)  é célebre pelas suas casas pitorescas, monumentos e turismo. É o lugar mais desejado pelos compatriotas. Em 1979 e no ano seguinte, Ohrid recebeu da UNESCO a honra de ser Património Mundial, tanto cultural como natural. No mundo não chegam aos 30 os lugares com esta dupla bênção. Depois de percorrer o lago e a pedonal que dá vida à baixa, subo ao castelo. Quero uma vista privilegiada. E tenho-a! Apenas não me perdoo ficar sem bateria na máquina fotográfica quando alcanço visão clímax da cidade.Deambulo,igualmente, pela fantástica igreja ortodoxa na mesma encosta. Plaoshnik parece em obras há algum tempo. Escavações em seu redor revelam um novo marco histórico numa cidade que já integrou inúmeras culturas e nações ao longo dos séculos. Vou a uma segunda igreja ortodoxa, claramente mais antiga e ‘rica’ nas suas pinturas e estrutura, em madeira que teima em resistir ao tempo. Sveti Klimenti.Um pouco mais abaixo, anfiteatro assistiu a leões a devorar homens alternadamente com recitais e peças de teatro. Agora os seus idos tempos de glória são lembrados a organizado grupo de turistas alemães. Quase na base da encosta, grupo muçulmano surpreende com múltiplas fotos em largo cativante com igreja… Ortodoxa. Sui generis. E quase todos munidos de tablets, com os quais imortalizam o momento.Na margem do lago há um novo passadiço em madeira. Sigo-o e deparo-me com praias, esplanadas, guesthouses.De volta à pedonal, meia hora inesperada com grupo multinacional e multicultural. “Estamos cá em seminário sobre gestão de conflitos e ajuda a outras nações”, explica uma sérvia. À primeira vista, mais parecem grupo excursionista. Confesso-o. Sorrisos cúmplices que admitem que a teoria tem o seu  quê de verdade. Dá para tudo, evidentemente.É com mix de peixe e vinho local que vejo o Barcelona ser cilindrado pelo Bayern de Munique. Valeu pela refeição. E pela “aposta” ganha em palpite aquando do sorteio. Um intenso gelado de três sabores ajuda a digerir o desafio.Kosovo é o meu próximo objectivo. Macedónios dizem-me para ir via Skopje. Albaneses asseguram que o melhor é por Tirana. Vencerá a Anna, que no dia seguinte insiste e volta aos Balcãs, via Roma. Será o prometido reencontro….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?