PRIZREN

Europa Kosovo

As sucessivas garantias que me dão de que Prizren é a mais entusiasmaste e interessante cidade do Kosovo são confirmadas no terreno. Não deu para comparar, mas o tempo aqui passado bastou para me embeiçar por completo por este burgo cheio de história que teve a felicidade de passar quase incólume pela guerra.
Diversas culturas miscigenadas – muçulmana, ortodoxa e católica – numa região de grande predominância albanesa, cuja fronteira fica perto. Tal como a da Macedónia.
A fome de um despertar prematuro, ainda em Tirana, atirou-me para o almoço às 11h30. Ataco uma bela sopa tradicional que ganha outro “sabor” quando aceito a sugestão de lhe adicionar uma mistura de alho com um quase-vinagre, seguida de uma salada e kebab para desenjoar. Estômago pacificado, o dia tem tudo para ser bem passado.
Estamos na Shadervan, zona mais animada e ‘turística’ no sul da cidade (170 mil habitantes) repleta de cafés e restaurantes. E uma praça central com uma concorrida fonte.
Jericho começa a captar a minha atenção. A banda kosovar tem pinta. As suas músicas servem para chamar a atenção dos transeuntes e juntar largas dezenas. Protestam pela falta de afetação de recursos financeiros para a cidade. “Prístina fica com tudo e vão apenas migalhas para o resto do país. Assim não pode ser. Fazemos todos a mesma nação, tão recente, e se começamos a dividir-nos já…”, lamenta um dos promotores da iniciativa.
Recolhem-se assinaturas, distribuem-se folhas A4 com palavras de ordem e minutos depois já é o microfone que passa o discurso. Ainda assim, pouco inflamado. As câmaras de televisão cobrem o protesto, pacifico.
Filomena tem loja de flores. Uma delícia de estabelecimento, por sinal. À conversa, fico a saber que esta jovem de meio século é croata.
“Nunca tive problemas aqui. Dou-me bem com os albaneses, sérvios e turcos. O ambiente será dos melhores no Kosovo, mas já tivemos dias complicados”, diz-me.
Recorda o êxodo dos albaneses aquando da guerra 1998-1999, forçados/intimidados pela minoria sérvia a sair. Morreram cerca de 30 pessoas e foram queimadas mais de 100 casas. Mais tarde, tudo se inverteu. Regressou a reforçada maioria albanesa e os sérvios saíram. Na retaliação, o seu bairro típico, tal como os seus monumentos e referências religiosas, foram danificados, queimados ou destruídos.
“Tenho amigos dos dois lados. Isto não foi bonito. Aquando dos bombardeamentos na região, ainda pensei em sair. Mas fiz a minha vida cá. Estão aqui todas as minhas referências. Quero ser feliz na terra que escolhi como minha”, explica.
No início do século XX, na primeira guerra dos Balcãs, Leon Tolstoy, enquanto jornalista, foi um dos que denunciou a matança de largas centenas de albaneses.
Esta terra tem sido martirizada por conflitos e mudanças de poder. Ainda assim, não sinto nos rostos cicatrizes mal curadas das disputas e guerra. Avanço para uma mesquita que apenas contemplo do exterior e acompanho o rio até ao fim da zona histórica. Atravesso para o outro lado e estou no museu etnográfico  da cidade. Ambos no mesmo complexo. No primeiro, testemunho a beleza dos trajes típicos da região. No segundo, as marcas históricas de um Kosovo que já teve demasiados ‘donos’.
No curto espaço que os separa, dueto de conhecidos cantores em rodagem playback. “É para um vídeo que recorda os mártires do nosso povo”, explica-me a responsável dos museus. 
Regresso à velha ponte de pedra no centro. Imagem de marca de Prizren. Aprecio-a ao sol. E aconchego-me em esplanada. Pena o rio também transportar lixo. Impede o cenário de ser perfeito.
Recomeço a exploração pelos antigos banhos turcos. O edifício está lá. Belo. Imponente. Agora há que recuperar a tradição.
As esplanadas estão cheias, adultos entretidos com jogos de tabuleiro e jovens passeiam com a farda escolar. Uma doce baklava digerida, sol mais sereno e é altura da exigente subida ao castelo. Litro e meio evapora em quinze minutos. O corpo exige-o. É o preço do esforço. Que bem vale a pena. Não pelo castelo em si – um monte de ruínas ao abandono – mas pelas vistas. Da cidade. Do vale.  Das encorpadas montanhas, em múltiplos verdes e picos nevados.
É sentar e esperar pelo pôr-do-sol. Belas cores.
De volta à cidade, duas amigas universitárias abordam-nos. Quem somos? De onde vimos? O que fazemos ali? Sugerem-nos coisas para fazer. A mais comunicativa pede-me o facebook. “Para praticar o inglês”.
Vivem no mais moderno prédio que vi na cidade. Excelente aspeto. As seis estudantes que lá vivem pagam, no total, 200 euros.  33 cada uma. Acha caro. Fica a saber que em Portugal bem poderia pagar essa verba por um mero quarto. Não entende como é possível, conhecendo os ventos da crise que varrem o país.
Mimo-me com jantar na mais concorrida e vistosa esplanada de Shadervan. Afinal, não é todos os dias que ando pelo Kosovo. Derreto-me com salada de três queijos e legumes. Seguida de veado regado com creme de cogumelos e especiarias. Peço bebida com nome similar a “Portugal” e levo com sumo de laranja. Não natural.
Antes de regressar ao hotel, asseguro-me de que volto à fonte central. Dizem que quem lá bebe voltará um dia a Prizren. Com todo o gosto. .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?