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BERAT

Albânia Europa

Esta era a minha prioridade na Albânia e a experiência apenas provou o acerto do “feeling”. Património Mundial da UNESCO, Berat é uma cidade de 70 mil habitantes incrustada nas montanhas, com delicioso centro histórico em pedra. Destaca-se o seu castelo habitado por dezenas de famílias no aconchego das suas muralhas.
Quis começar com uma visão abrangente do burgo. Cruzo o rio e a perspetiva melhora. O bairro histórico deste lado está completamente desaproveitado em termos turísticos. Aliás, tirando a costa, este é um pecado comum a todo o país. O que muito agradeço, pois quando as massas chegarem – e não duvido que o farão – a Albânia não mais será a mesma. Nem as suas afáveis gentes.
Aprecio ao detalhe cada pormenor de igreja ortodoxa. Um humilde senhor, que não diz uma palavra além de albanês, vai-me explicando as coisas, mesmo percebendo que não conseguimos comunicar. Acompanho-o com agrado e gestos de cabeça. No fim, agradeço simbolicamente o seu cuidado. Para mim não é muito. Para ele, pode ser o dia ganho.
Cruzo-me com três crianças que me sorriem. E Amelie, de uns 10 anos, é a mais velha e aborda-me em inglês… comunicável. Tiro-lhes foto de família e depois poso, orgulhoso, com elas. São irmãs. E os pais acenam-me, satisfeitos, pela atenção que lhes dou. São apenas breves minutos e sou mimado com babados “adeus”.
Quando decido atacar a íngreme subida de centenas de metros que me levará, enfim, ao castelo, permito ao cansaço (acumulado dos últimos dias) o conforto de me deter, primeiro, no museu etnográfico. Aprecio um dos edifícios mais belos que recordo em todos dos Balcãs. Fico de voltar lá para o fim da tarde.
A subida exigente é compensada com visão suculenta de modestas, mas cativantes casas em pedra. Estendem-se em ruelas mal-amanhadas, mas bem preservadas. O dinheiro que a União Europeia deu para a recuperação e reabilitação de centros e monumentos históricos da Albânia é recompensado em cada cêntimo. Estou num dos locais que mais me cativa neste périplo.
A vista é envolvente em 360º, entre o longo vale onde a cidade se espraia e as robustas montanhas que a amparam.
Os dinheiros comunitários permitiram às famílias aventurar-se em pequenos negócios. Agora podemos encontrar aqui onde comer. E comprar produtos artesanais locais, com predominância para os têxteis. À exceção de postais e imãs para o frigorífico, os souvenirs de Berat ainda são mercado a explorar.
O ambiente tranquilo e rústico que se respira permite deter-me em pormenores deliciosos, como uma pequena propriedade em que os espantalhos são bonecos (humanos e animais) que um dia coloriram o imaginário de crianças, que ainda vão cirandando pelas ruas. Não esperava ver asiáticos super-heróis futuristas a espantar aves…
Detenho-me à conversa com este e aquele e, saciado da primeira visita, acabo por descer na companhia de Adriano. Comunicamos em italiano, pois também ele viveu no país que durante anos governou a Albânia, na altura acusada de ter uma liderança “fantoche” ao serviço de Roma.
“Recordas aquele barco repleto de refugiados albaneses que nos anos 90 esteve tempos infinitos no mar às portas de Itália? Pois bem, eu estava nesse barco”, diz-me.
O quase sexagenário, mas com energia de menos 20 anos, é excelente conversador. E recorda-me o “caso mediático mundialmente” em que foi um dos protagonistas. “Foi muito duro, complicado. Não havia grandes condições no barco, com muitas mulheres e crianças. Talvez só aí o Mundo tenha acordado para o drama da Albânia”, diz-me.
Enquanto me guia por pouco seguro atalho encosta abaixo, Adriano conta-me que viveu mais de 10 anos em Itália, mas que agora jamais voltará a sair da sua “amada Albânia”.
Pergunta-me uma e outra vez se quer que vá mais devagar. E detém-se a falar com amigo pastor, deitado na relva a usufruir da sombra que o sol intenso transforma em paraíso.
Ao fim da tarde, caminhada na muito concorrida pedonal que termina no estádio de futebol do clube local, que nunca foi campeão.
Na baixa, destaca-se o megalómano edifício da universidade, que nada tem a ver com o resto da cidade. Imponente, faustoso e totalmente desenquadrado com tudo o resto.
A divina esplanada do hotel é o local escolhido para um belo jantar, com a Albânia a mostrar que também pode produzir vinhos de qualidade. O calor, as luzes das casas rústicas e os sons da natureza completaram a noite, que deslizou ao ritmo de exóticos sons balcânicos….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?