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Gjirokastra

Albânia Europa

O ditador Ever Hoxha, que chegou ao poder após a ocupação italiana da Albânia, tentou fazer de Gjirokastra um importante centro social e cultural do país. A sua terra natal mereceu sempre especial atenção durante os 44 anos do seu imposto reinado (1941 a 1985).
O seu bem preservado estilo otomano (ainda assim, a longa era comunista destruiu boa parte da sua herança religiosa, poupando apenas um minarete) valeu-lhe o reconhecimento de Património Mundial. Bem antes disso, Hoxha já a tinha escolhido como palco do Festival Nacional de Folclore, evento que se realizava de cinco em cinco anos e que, essencialmente, exaltava o orgulho albanês.
O palco ainda lá está. Abandonado, como quase tudo o resto. O castelo de Gjirokastra foi outro dos monumentos históricos a receber apoio da União Europeia para a reconstrução e preservação.
A infraestrutura está montada… não é usada há imensos anos, mas persiste. O lugar é fantástico, admito, tal como as vistas para todo o vale a montanhas do outro lado.
A entrada é euro e meio. Não temos notas baixas e a coisa fica por um euro. Perceberei depois que o piso superior do castelo e o pequeno museu estão fechados. Aquela hora apenas posso ver canhões, tanques de guerra, a estrutura geral do complexo e as vistas.
E um caça norte-americano. Fruto de uma aterragem de emergência em Tirana. Na altura da guerra fria, foi usado (e abusado) por Hoxha como “prova” de que os americanos os espiavam. Foi mais um dos pretextos insanos para investimento despropositadamente louco na defesa. Ever Hoxha mandou construir 750 mil para uma população que na altura não chegava aos três milhões…
Gjirokastra foi classificada de cidade-museu nos anos 60 e, também por isso, sobram coisas para ver, imagino. A cidade tem muito de semelhante com Berat, embora seja, a meus olhos, bem diferente.
Tenho fome e Jelena, que trabalha numa operadora móvel, aconselha-me “gifqi”, umas bolas de arroz misturadas com ovo, queijo e folhas de menta raladas. “É o prato mais típico da região”, assegura-me.
De todos os nomes esquisitos que provei, este foi, seguramente, o mais saboroso. Desafiarei o bom senso e correrei o risco de um dia tentar repetir isto em casa.
O centro histórico espalha-se em calçadas que acolhem casas geralmente velhas, embora típicas e bem conservadas. Exteriormente.
Jelena promete trazer-me outras delícias gastronómicas no dia seguinte. Diz que será um prazer para a sua mãe. Dissuado-a. Não a terei convencido na totalidade.
Entretanto contemplo velho artesão a trabalhar pedra, na rua. Em frente à sua loja. Metros acima, cabras pastam a erva que rodeia o castelo. Vigiadas por relaxada pastora.
Não há turistas na casa do ditador e apenas encontro família nórdica no museu etnográfico do outro lado da rua. Nada como andar longe dos roteiros internacionais.
Na baixa, os clubes das cidades Património Mundial medem forças. O Tomori Berat adianta-se 2-0, mas o Luftëtari Gjirokastër recupera e empata 2-2. Os locais são antepenúltimos e os visitantes penúltimos. Isso ajuda a explicar os singelos 200 espetadores.
À noite, as bordas da bancada descoberta que rodeia o recinto são transformadas em esplanadas. Recinto aberto ao público e muito concorrido. Pouco iluminado. Tem forte acolhimento de novos e mais experientes.
Tomo um copo e observo a agitação de sábado à noite. A cidade está em polvorosa. A juventude que parecia escondida exibe-se agora no máximo do seu esplendor. Eles e elas em trocas de olhar sensuais. O tempo primaveril solta as hormonas. Há sedução no ar….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?