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SAVE THE BEST FOR LAST…

Europa Grécia

Mergulhar no centro histórico de Corfu é experiência sublime. Abandono as águas turquesa que o embalam e invisto por cativantes ruelas, mascaradas de um envolvente misto de Veneza e… Nápoles. Perco-me entre paredes orgulhosamente descascadas, convidativas portas e janelas, criativos estendais desorganizados, gente genuína… Ambiente do mais acolhedor.
Corfu deve muito do seu ser a Itália, ou, mais concretamente, aos venezianos, que em tempos longínquos ocuparam a ilha. Isto já depois dos napolitanos por lá terem andado. Na verdade, foi justificando esta herança que o fascista ditador Mussolini anexou, por duas vezes, Corfu ao Reino de Itália.
Vou vagueando até encontrar a esplanada ideal. Qual o crime de apreciar, bem instalado, um cenário de cinema enquanto sacio um apetite a roçar o voraz e uma sede igual à que tenho em explorar cada recanto deste mítico burgo.
Vasiliki ficou de me esperar no porto às 17:15. Ainda não sabe que me antecipei várias horas. Tento contactá-la, não atende. Insisto, telemóvel subitamente desligado. Preocupar-me-ia, caso não estivesse em êxtase com o momento.
Gostei muito da Macedónia, rendi-me à Albânia e surpreendi-me com o Kosovo, mas Corfu já estava a entranhar-se em mim e ainda mal tinha chegado.
Acabo por receber uma chamada de Vasiliki. Os deuses sempre estiveram do nosso lado. Estaríamos separados por uns 100 metros. Abraçou-me com o olhar e alimentou-me com o seu sorriso. Sem réstia de dúvida de que os dias finais deste périplo iam gravar-se na pele.
“O meu telemóvel morreu. Caiu há pouco na água e já não consigo fazer nada com ele”, lamentou-se, rindo descomplexadamente do seu infortúnio. Devolvê-lo à vida seria uma saga…
Vasiliki Schoina vai receber-me duas noites em sua casa. Tal como eu, é couchsurfer. Não tardarei a perceber que é uma mulher fantástica, um ser humano único. Com uma sensibilidade ao nível da sua formação musical.
Depois de instalados na sua histórica e esguia casa de quatro pisos (sobre a qual falarei mais tarde), deixamo-nos guiar pelos acordes melodiosos que nos levam a um templo ortodoxo, dedicado a São Jorge.
A Páscoa ortodoxa é posterior à católica. A música é uma das suas principais bênçãos e convergem a Corfu grupos de todo o lado, quantos eles a promover concertos espontâneos.  Aliás, a ilha é particularmente procurada nesta época festiva.
A igreja está cheia. Ouvimos umas quantas músicas e o ar progressivamente rarefeito leva-nos a sair. Sentamo-nos num muro adjacente com os pés soltos sobre o mar e com vista para a marginal. O sol vai-se escondendo e a paisagem ganha cores poéticas. Com suave banda sonora e um clima ameno a completar o cenário, vamo-nos deixando ficar…
Se há povo que rivaliza com Portugal no gosto pela comida, o grego é, certamente, um deles. O apetite já faz mossa e regressamos ao casco velho para atacarmos uns petiscos.
Athina e Alexander juntam-se ao jantar, em concorrida esplanada que une dois tascos em ruela típica. Todos se queixam da crise, porem esta noite parece nossa e contradiz uma triste realidade que teria a oportunidade de constatar.
Com o palato em êxtase com a qualidade e intensidade dos sabores locais – queijos, cogumelos, legumes grelhados, guisados e ouzo… – completamos a noite em bar, com bom som local e cálice de vinho a condizer.
Sei que ficaria ali uma eternidade….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?