Just (another) Perfect Day…

Europa Grécia

A noite tinha terminado com pirilampos. Surpreendentemente, Corfu, a sua zona antiga, está pejada destas luminosas criaturas. Foram o melhor embalo para um sono sereno. Que contrastou com os primeiros minutos da manhã.
O secador quase recuperou o telemóvel de Vasiliki. O aparelho já ligava, mas o zero estava aniquilado e o pin tinha esse dígito fatídico. Decidiu leva-lo para a praia. “Um pouco de sol não lhe fará mal”, disse-lhe. A música grega prometeu um strip (do tlm) “a ver se atina de vez”.
Andamos de um lado para o outro. O carro de Vasiliki não aparece. Pensa melhor e tem a certeza que não está onde o deixou. Preocupação. Pânico. Minutos de desespero. Acalmo-a e digo que algo pode ter sucedido, podem ter rebocado o carro por qualquer motivo. Fala com empregado de um bar em frente. Confirma. Na véspera várias viaturas foram removidas para uma banda musical poder passar. À larga.
A polícia corrobora. “Não sabemos a rua, no entanto procure na zona”. Assim fizemos. Está a uns 200 metros, em cima do passeio. Bloqueado pelos carros estacionados. No meio do azar, uma viatura a sair. Aproveitamos a aberta.
Telemóvel marado, carro encontrado e nós a caminho. Vamos para sul. Sons alegres e sol feliz. Vasiliki prometeu-me uma praia deserta, só para nós. E cumpriu.
O mar é chá. O azul dengoso. As águas cristalinas. E apenas os três. Anna nunca tinha tomado um banho de mar. Confissão que nos surpreende. É o seu batismo. Tem 20 anos. E está armada de bikini…
A entrada na água é tímida. Percebo depois que sabe nadar, apenas debaixo de água. Admira-se com o meu boiar, imitado pela Vasiliki. Tenta fazer o mesmo. Está descoordenada. Renitente, aceita a minha ajuda. Cinco minutos depois, é vê-la livre. E feliz.
Passo pelas brasas quando sou despertado por melodia que se escapa de flauta cujo tipo não sei identificar… e não memorizaria a explicação de Vasiliki. A minha amiga grega pratica enquanto se passeia onde as ondas perecem… Imagino que a flauta é mágica e encanta os peixes. Trouxe também um pequeno xilofone que dá a Anna. Sou maravilhado por dueto de ilustres executantes.
Flauta. Xilofone. Brisa. Murmúrio das ondas. Praia deserta… Estava no sítio certo à hora exata. Não podia pedir mais.
Bom, na verdade, até podia. O tempo avança sem avisar e são já 17:30, sem que tenhamos almoçado. E a fome… Nada que Vasiliki não resolva, novamente com mestria.
Vamos serpenteando encosta acima até que o carro se detém. “Agora seguiremos a pé. Temos de atravessar a aldeia”. Passamos por casas sem tempo, cruzamos uma minúscula praça central, cumprimentaríamos os idosos que bebem e jogam cartas. Subiremos ao primeiro andar, sairemos para o terraço e abraçaremos o Mundo com uma vista soberba sobre a ilha. E o mar sem fim. “Daqui não sairei tão cedo”, ameaço. E cumpro.
Chegam enormes pimentos grelhados em molho viciante, em dengosas melodias balsâmicas. Segue-se feta com especiarias e tomate, vindo do forno, embrulhado em prata. Aparecem suculentos cogumelos lascados e grelhados, temperados com ervas aromáticas. O assombroso típico molho de iogurte com alho e ervas… A inevitável salada grega já lá está. O vinho também. Tal como o pão e as azeitonas.
A paisagem contínua imutável. As suas cores vão mudando serenamente. Caminha, pachorrentamente, para o fim de tarde. O sol vai-se despedindo, parcimonioso. Indica-nos o caminho de Corfu.
A última noite prometia. Ao sabor de Tsipouro e ao ritmo… do que quisermos..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?