LOOONG NIGHT…

Europa Grécia

O longo almoço até ao pôr-do-sol deixou pouca margem para o jantar. Pelo menos a horas decentes. Por isso atacamos o “tsipouro”. Apenas uns residuais 45 por cento de álcool que nos despertam em dois tempos.
Na verdade, não consigo ingerir essa corrosão alcoólica sem forrar novamente o estômago. Mesmo que este me garanta que só em dias aceitará novo alimento. Mas o tsipouro não dá tréguas. Vale-me que, neste bar dedicado à música e aos seus ilustres executantes, vem sempre algo a acompanhar a bebida. E é sempre surpresa.
Experimentarei rins em molho de tomate, feijão vermelho simples, um fino tipo de tortilha, queijo, imitação de almôndegas embrulhadas em couve, azeitonas, pão… mas em doses apenas suficientes para “picar”.
Vasiliki reúne os amigos e outros estão para chegar. Esta noite promete ser musical. “É assim neste bar. Todos os dias chega alguém com um instrumento e, quando te apercebes, tens um pequeno concerto e a malta a curtir”.
As fotos que ilustram as paredes dão uma ideia do que são esses convívios e estou em pulgas. Mas o tempo avança e a malta tarda em reunir. Já passa da meia-noite e os vizinhos costumam ser exigentes com as suas merecidas horas de sono. “Está a ficar complicado”, assume Vasiliki.
Quando percebo que não vou ter música, é como levar inesperado soco no estômago. Antes que o meu rosto esboce profunda deceção, Vasiliki arranca-nos do bar e arrasta-nos até sua casa. Violas, flautas, xilofone, castanholas… vai tudo connosco. “Para o parque. A esta hora, para onde havia de ser?”.
Atravessamos animadas ruelas da cidade velha, namoro um gelado de iogurte grego que mais tarde faço questão de vir buscar e aterramos no verde sob as estrelas e uma lua com intensidade anormal.
O grupo atesta de cerveja, enquanto me delicio com o dito gelado. O mais saboroso de que me recordo. “Artesanal. Uma receita do nosso amigo Dimitris que se está a safar muito bem”, revela a minha amiga, que lá trabalha quatro dias por semana, tal como vários dos elementos do grupo. “A 20 euros o dia…”.  
Somos seis e juntamo-nos a uns 15 que já tocam uns acordes. Cedo percebemos, no entanto, que estamos em ondas diferentes. Afastamo-nos uns tranquilos 50 metros e usufruímos da relva fofa. O show, pode começar…
Em 20 minutos o grupo mais do que duplica. As músicas vão desfilando na noite que nos abraça com calor especial. Anna surpreende no xilofone, encontrando o ritmo perfeito para o que vai ouvindo. Todos se espantam. A sua formação musical também ajuda.
Tocaram-me as castanholas. Estão envergonhadas, silenciosas. Até que são desafiadas a dar o seu contributo. Não terei estado demasiado mal. Ou o grupo é mesmo simpático e delicado. Caso contrário, não estaria aqui para escrever estas linhas…
Penso no quanto temos em comum com estes gregos afáveis, alma aberta, coração na boca. Gente simples, despretensiosa, que apenas insiste em enfrentar a negra maré. Em ser feliz.
As horas avançam e passam das 04:00 quando está na hora de recolher. Taylor, um “bacano” poeta californiano, foi despedido do bar onde era suposto trabalhar durante um ano. Apenas durou uma semana. A gerente entende que, afinal, não tem perfil para a função. O seu ar e atitude boémios deixam-me crer que terá alguma razão. Taylor, é, ainda assim, do mais simples e bondoso. De inteligência, sentido de humor e companheirismo sem fim. Deitado a contemplar as estrelas, insistiu em que colocasse o seu casaco a almofadar a minha cabeça.
Tem voo no dia seguinte para Barcelona. Está com a mochila e vai dormir no parque. “As estelas são a melhor companhia para um Homem”, insiste. “Mas uma cama, um chão, qualquer coisa entre quatro paredes também não é mau”.
Evidentemente, não ficou ao relento. Os meus novos amigos jamais o permitiriam. Não faz parte do seu ADN. Arrastam-no convictamente, para que perceba que ficar só – mesmo que num quente relento – não é opção..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?