Dura realidade

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A viagem para o aeroporto é curta e em silêncio. O fim tem pressa. Uma urgência que não partilho. Abandonarei Corfu, deixando gente que me escancarou as portas das suas vidas. Em breve sucederia o mesmo com Anna. O nosso destino não estaria unido por muito mais tempo…
Não faremos mais de três quilómetros, ainda assim o taxista quer 10 euros. Digo-lhe que nem pensar. Mostra-me uma tabela para tentar justificar uma “taxa especial”. Nada do que diz está lá. Acaba, naturalmente, por ceder.
Formalidades cumpridas e pronto para embarque. O calor aperta. A minha mochila não cumpre os requisitos. Terel de vestir calças, por o polar à cintura, tal como o impermeável. Agora sim, estou conforme. Voo repleto de turistas. Todos com corzinha de sol e praia. Destoo um pouco.
O voo para Bergamo é mudo. Em horas, nova despedida. Anna continuará o seu périplo, agora por Itália. Eu regressarei a Portugal. Teremos um derradeiro jantar e cada um seguirá o seu caminho. Apenas não sabemos em que parte do dia divergiremos no caminho.
Apanhamos o transporte para o centro da cidade. Vamos diretamente para a parte alta, a antiga. Sem estadia reservada, até porque devo estar no aeroporto às violentas 04:30. Sem sono e cama para mero par de horas deixa de fazer sentido. O jantar seria tardio e um último passeio pela cidade justifica-se.
“Fico contigo até partires”, diz-me Anna. Insisto que não. “Não faz sentido passares a noite em claro. Irei para o aeroporto muito cedo e pouco depois estou a partir. Despedimo-nos aqui e estás fresquinha para seguir viagem”, repito.
Cedo entendo que as minhas palavras de nada valem. Nem os argumentos. Anna está mais do que decidida. Assertividade invulgar para a sua juventude. Não vai ser fácil…
Andamos sem destino. Procuro apenas rotas por explorar na cidade onde já tinha estado no início da viagem. Jantaremos já na baixa de Bergamo. E é meia-noite que seguimos para o aeroporto. Nós e duas dezenas que também preferem prescindir de cama nessas madrugadoras horas antes de partir.
A zona das chegadas é a única aberta em todo o complexo. E quase todos os lugares ocupados. Lá encontramos dois livres, juntos. Vou usando o seu ipad para tomar notas, escrever umas linhas. Anna estuda a sua futura rota. O tempo corre demasiado despreocupado e a posição sentada torna-se desconfortável. Desafio-a a procurarmos um cantinho livre que nos permita esticar e passar pelas brasas.
Às 03:30 uma besta acorda toda a gente a dizer que aeroporto está oficialmente aberto. Passará mais de uma hora e nada acontece. Não abre um único escritório ou loja. Retificação: trata-se de besta QUADRADA.
Duas despedidas emotivas em menos de 24 horas é demasiado. Ninguém merece. O que havia a dizer, já foi dito. Apenas nos abraçamos. Longamente. Com picos de intensidade. Com um carinho do mais profundo. E uma cumplicidade invulgar, ainda por digerir e entender. Gerações bem diferentes, culturas bastante distintas. No entanto estávamos ali, unidos. Juntos até ao fim.
Está na hora de partir. Os braços afrouxam. Os dedos percorrem os seus braços até se prenderem nas pontas, em derradeiro indelével suspiro. Vou-me afastando de um sorriso estoico, em abundantes lágrimas. Olhares fixos e acenos até que a ausência do contacto visual nos alivia, tornando-os já impossíveis, desnecessários.
Não conseguirei dormir no voo. Voltarei ao lar ao fim da manhã. Dormirei um par de horas. A escala indica-me que volto ao trabalho hoje mesmo. Às 17:00. A vida recomeça num instante….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?