Kitch-iti-kipi

América do Norte Estados Unidos

Estaria absoluta e suficientemente desperto para absorver o cenário na plenitude? Ainda não sei. Sem certezas. O que importa é que, quando um dia começa assim, apenas nos apetece perpetuá-lo. Congelar momentos, dar-lhes vida eterna na mente.
Kitch-iti-kipi. Não, não é lenga-lenga. Apenas nome que merece ser memorizado para que, um dia, se cruze novamente no nosso destino.
Foi o único parque no qual tivemos de pagar entrada. “Apenas para a viatura e, hoje, permite-lhe entrar em todos os parques do Michiagen”, diz-nos zelosa guarda florestal à entrada do Palms  Book State Park, no Indian Lake. Não que tivéssemos fiscalização em qualquer outro dos vários locais que visitamos.
Das margens, logo percebemos os verdes translúcidos. Era possível ver um grão de areia deleitar-se no fundo da nascente, a maior do Michigan. São tantos metros cúbicos de água por minuto que brotam do solo que me custa a transcreve-los. Que fiquem pelo imaginário de cada um. (Em surdina, posso dizer-vos que são mais de 1.000 litros por segundo…).
Há uma espécie de barco/jangada, com abertura no seu interior, que nos permite ter visão perfeita do fundo da nascente, com o limite de 13 metros de profundidade. E é aqui, nesta visão idílica, que os nossos olhos não resistem a arrebatador enamoramento…
É pura tecnologia 4K que nos traz imagens perfeitas da água a brotar do solo, levantando nuvens de areia, enquanto enormes trutas vagueiam, suspensas e em slow motion, nestes azuis puros e cristalinos, rodeados de estimulantes bosques.
É como se mergulhássemos num amplo aquário (oval de 91×53 metros) e os nossos sentidos deixassem de ter vontade própria e apenas se deixassem guiar numa ilusória viagem…
Há troncos de velhas árvores caídos no lago que o embelezam e uma dezena de patos selvagens em surpreendente dança sincronizada, com as caudas para o ar e cabeça submersa em busca de alimento.
Kitch-iti-kipi. Os nativos americanos – índios – chamavam-lhe “Mirror of Heave” (Espelho do paraíso). Vale a pena descobrir porquê….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?