WASAGA BEACH

América do Norte Canadá

Nem houve tempo para as apresentações. Os céus andaram loucos durante uma semana e esta é a última noite em que o podemos confirmar. O aviso tinha sido feito pela nossa anfitriã que nos guiaria à procura das trevas.
Teremos andado uma meia hora em busca da melhor… sombra. É com total ausência de luz que melhor podemos contemplar os astros. Wasaga Beach não é como boa parte do vasto território canadiano e não nos brinda com escuridão plena. Mas não nos poderemos queixar.
Cabeças no ar, até doer. Recompensados com interessante cadência de “Ali! Ali!”. Terei visto uma dezena. Um belo espetáculo. Ainda assim, sem rivalizar com a experiência de 2010 na Namíbia quando um objeto rasga, com intenso brilho, a atmosfera à minha frente, num negrume que me permite ver firmamento com inigualável número e clareza de astros.
Voltamos a casa, instalamo-nos e apreciamos outras estrelas: Dimitri e Brady. Gigante jovem gato siberiano e pequeno traquinas cão poodle. Juntos, um festim. Serão excelente companhia o resto da noite.
Madrugamos para a foto de família com a nossa querida e imponente militar. Serviu no Afeganistão. Sobram-lhe boas histórias da sua invulgar carreira.
Espreitaremos a famosa praia – a dita maior do mundo de água doce – com extensos 14 quilómetros de areia. São apenas 17.000 habitantes, mas há pelo menos um português. Tem uma loja de souvenirs e está bem identificado. A orgulhosa bandeira nacional ondula fortemente ao vento, o mesmo que não nos deixará usufruir convenientemente do areal. O carro vira improvisada esplanada e os mantimentos entretanto comprados transformam-se em manjar de pequeno-almoço.
Já no caminho para Toronto, uma árvore parece reclamar estranho natal antecipado. Carrega largas dezenas de pares de calçado. Não resistimos a parar e documentar devidamente a surpresa. “Também vai deixar o seu contributo?”, questiona-me sorridente família de idade mais avançada. “Acho que o azul iria captar todas as atenções e o restante calçado ficaria com ciúmes”, atiro. Partem com serena gargalhada.
Temos de devolver o carro até às 13:30 e o tempo longe de sobrar. Acederemos mais tarde a wifi a ver se o nosso prometido anfitrião já nos enviou a morada. Bem mais prático instalarmo-nos primeiro e tratar da viatura depois, já no centro de Toronto.
“Lamento, Rui. Mas acho que não vai dar. Estou a pensar tomar um copo com os amigos após jantar…”. Com esta mensagem curta e seca, sem a palavra “sorry” incorporada, somos descartados. Primeira situação do género em seis anos de couchsurfing.
Não há tempo para lamentações. Procurar alternativa. No booking tentamos lugar economicamente aceitável e que seja igualmente acessível em termos de transportes públicos para o aeroporto. Será uma universidade. E todo este inesperado processo nos faz atrasar pouco mais de meia hora. O suficiente para sermos forçados a pagar 70 dólares suplementares. Toronto voltou-nos as costas?.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?