“HEART BREAKER”

Europa Médio Oriente Nova Zelândia

É no ar que repousam os sonhos. Os meus estão exatamente a 11.303 pés de altitude, onde tudo parece mais claro. Com ou sem Syrah.Sem sobressaltos, no voo da Qatar, vão-nos indicando, à hora das várias orações, para que lado fica Meca. À medida que avançamos, ficamos a saber o exato ângulo e a distância precisa para o lugar que cada devoto do Islão deve visitar, ao menos uma vez na vida.Sentado em velocidade cruzeiro, bem perto do anunciado paraíso, divago. Questiono-me sobre quantos, mergulhados nas amarras da rotina, nos esquecemos de sonhar? Verdadeiramente. Não falo de sonhos vãos – aqueles destinados ao insucesso da cómoda desistência antecipada, sem verdadeira luta para serem realizados – mas daqueles que nos fazem sentir plenos. Sim, é na busca de momentos de plenitude que gastamos as nossas energias, empenhamos os nossos créditos. A conversa rola e o desafio é lembrar o último momento de genuína magia a invadir-nos alma. Ou a mais recente gargalhada pura… a derradeira lágrima.
Estendemos esta conversa aos que no nosso quotidiano nos rodeiam e inquirimos sobre a necessidade de cada um cometer uma loucura (saudável) para verdadeiramente sentir liberdade.
Temos feito outros felizes? Somos capazes de nos rir de nós próprios? Quebramos a rotina e conversamos com estranhos? Que “prendas” nos temos oferecido? Temos experienciado a dor? Ou preferimos viver em dormente anestesia? O que nos impele e ao mesmo tempo impede de dar o “salto”? Enfim, aqui, acima das nuvens, tudo parece mais fácil, claro. Juntos, carregamos 106 anos de ilusões. E muita humildade para saber que quanto mais andámos, mais nos falta caminhar. Não procuramos grandes momentos, fotos ou momentos de arromba, mas simplesmente aqueles delicados pormenores que perduram, intemporalmente. Sem necessidade de serem catalogados, eternizados em qualquer parte inteligente do ser. Não fugimos e nada perseguimos. Apenas corremos, animados, para um lugar cada vez mais íntimo e quente em cada um de nós. Uma viagem sem stress. Braços abertos para o improviso, companheiros e cúmplices entre nós e de tudo aquilo que o mundo tem para nos dar. Estamos no céu e aqui queremos continuar. Com ilusão e sorriso sereno para a magia.PS: Obrigado, “Heart Breaker”.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?