ABORÍGENES

Austrália Oceania

É impossível falar da Austrália sem citar o povo aborígene. Ainda assim, trata-se de matéria a abordar mais seriamente apenas em momento posterior. Quando munido de informação suplementar. E mais consistente. De qualquer forma, esta para já curta experiência no país permite falar de factos objetivos. E é bem concreto que boa parte do comércio nas várias localidades por onde passámos vive da exploração exaustiva da cultura aborígene.
E continua a ser concreto, factual, que ninguém deste povo é visto na cadeia produtiva: seja em bancos, restaurantes, bares, supermercados ou nas tais lojas de “souvenirs” que vivem do que a sua cultura (a mais antiga do mundo a ter chegado aos nossos dias) produziu nos últimos 60.000 anos, desde que povoaram a Austrália (os europeus chegaram há pouco mais de 200).Não é complicado ver aborígenes nas ruas, mas também é verdade que não são assim tão fáceis de encontrar. Se puder criar uma regra apenas pelos que vi, vamos ao eterno problema do álcool – geneticamente, lidam muito mal com esta “droga”, com efeito semelhante no seu organismo a vícios em “pó” mais enraizados no resto do planeta – e ausência de laços comuns com a população branca. Normalmente com indumentária simples e pobre, desconforme às “normas sociais”, os aborígenes vagueiam pelas ruas e parecem viver em realidade paralela à dos brancos. Cruzam-se nas ruas, mas parece que não se vêm. Não comunicam. Ainda não consegui encontrar palavras que retratem fielmente este alheamento, vazio do seu olhar, que parece sempre distante. Sem dúvida, o modelo social australiano falhou aqui. Claramente. E nem me vou referir à Geração Roubada, que abordarei mais lá para a frente, talvez em Alice Springs. Despojados da sua terra, dominados por uma cultura com valores e regras completamente avessos aos seus, os aborígenes continuam desterrados na sua própria casa e o cenário dificilmente vai melhorar. Até porque a sua “integração” na sociedade parece mais um objetivo dos brancos do que dos próprios aborígenes, apenas felizes com o regresso ao passado, antes da invasão branca..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?