Duplo Terramoto

Nova Zelândia Oceania

“Disse-lhe que se queria que eu esperasse por ele, teria de estar disposto a casar comigo”, relata-nos Vicki, com o ar mais natural do mundo. Só se conheciam há três meses, mas queria estar certa de que não estaria a “desperdiçar” o seu “tempo”.
Eu e o Zé Luís nem queríamos acreditar. A jovem chinesa que está há um mês em Christchurch (Nova Zelândia) a tentar uma nova vida sabe bem o que quer da vida. Ou melhor, sabia. Parece que naquela noite lhe trocámos as voltas.
Explicamos-lhe que o rapazinho australiano a quem dirigiu estas doces palavras deve ter tremido mais do que a elegante Christchurch no terramoto de setembro (2010). O sismo não fez vítimas mortais, mas afetou cerca de 100 mil casas na zona da mais importante cidade da ilha sul da Nova Zelândia.
Só procurando atentamente, conseguimos ver as marcas que a natureza deixou naquela que dizem ser a mais britânica das cidades fora de Inglaterra.
Apesar das sucessivas réplicas que têm assustado, os cerca de 375 mil habitantes deste burgo do século XVIII mantêm inalterado tanto o sorriso como o otimismo. Já o australiano, temos algumas dúvidas se já recuperou…
A couchsurfer Vicki (boa parte dos asiáticos acolhem um nome inglês para serre tratados) revelou-se uma jovem de espírito ágil. Aprende muito rápido e sabe ouvir. Expansiva e pura. Coração junto à boca, como poucos. Foi uma boa companhia, no jantar que preparamos no hostel.
Durante mais de duas horas ouviu considerações sobre a vida e relacionamentos. Que nem tudo é preto ou branco. Que ela é mais importante do que qualquer paixão passageira. E que quanto mais experiente for, maiores as probabilidades de tomar decisões acertadas quanto ao resto da sua vida.
Quando não entendia, pedia para repetirmos. Até que não restassem dúvidas.
“Neste mês na Nova Zelândia, mudei, cresci um pouco”, confessou, com ar sério. “Neste jantar convosco, o salto foi muito maior”, acrescentou.
Desvalorizámos. Foi noite muito bem passada. Quando Christchurch voltar ao nosso roteiro (e assim será), haverá oportunidade para rever a “matéria”..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?