Milford Sound

Nova Zelândia Oceania

O nevoeiro confere um especial misticismo ao início da ousada experiência. São 07:00 quando entrámos de kayak nas serenas águas de Milford Sound, rumo ao Mar da Tasmânia. Esse não é o destino final, apenas a direção que vamos tomar.
Apetrechados até aos dentes, não há frio que nos derrube. Nem mosquito que se atreva. O espesso nevoeiro começa por ter piada, mas promete arruinar os nossos planos, pois a deslumbrante e imponente paisagem em nosso redor deve ser clara aos nossos olhos. Sobrepor-se a tudo o resto.
Entre outras charmosas criaturas, nestas águas nadam golfinhos, pinguins e focas, mas os primeiros traem os nossos sonhos. Hoje estarão fartos do fiorde.
Àquela hora prematura, com as águas paradas e a visão reduzida, a audição é instantaneamente apurada e assim ouvimos diversos e estranhos ruídos de aves, que ecoam e se sobrepõem entre si algures acima de nós.
A uns 20 metros, na água, aparece o primeiro pinguim, depois o segundo, vem uma foca… e é intensa paz vê-los procurar alimento no seu meio natural, aproveitando a melhor altura, ao raiar do sol, para um faustoso almoço, garantindo já aí o dia.
A meio do percurso, finalmente o sol perde a vergonha. O nevoeiro e a luminosidade vão brincando até que essa dança começa, lentamente, a destapar picos e montanhas abruptas que rodeiam todo o cenário.
Tudo selvática e hipnotizantemente bruto, puro, empírico. Rocha, natureza frondosa e cascatas mil. E nós ali, pequenos, minúsculos, com dificuldades em evitar esmagador assombro.
Juntámos os três K2 (Kayaks com dois tripulantes) e fazemos silencioso pic nic, perto de uma das inúmeras abruptas falésias: não resisto, pego no mp3 e a hora seguinte dedico-a ao meu belo prazer. Nunca foi tão agradável pagaiar.
O Lonely Planet (trouxemos três guias que continuam religiosamente guardados no fundo das respetivas malas) escolheu uma experiência de kayak em Milford Sound como uma das 10 mais fascinantes para realizar em 2011. Nos anos seguintes, o lugar ganhou adeptos e superior notoriedade. Ainda bem que nos antecipámos….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?