Tactear Istambul

Médio Oriente Turquia

Ficam duas ou três horas a ver coisas e depois nada compram. Que voltam mais tarde e nunca aparecem. Isto não é nenhum museu”, vocifera. Fala dos nossos irmãos brasileiros, mas bem podia referir-se aos portugueses. As lojas junto à  mesquita azul estão abertas, mas o pouco turismo da época anda pelo grande bazar. Entrei movido pelo ‘bonito’ de umas malgas. Os 15 euros que pediu à cabeca aniquilaram qualquer vontade de conversa. “Os turcos vêm dois/três minutos e compram. Os outros voltam sempre mais tarde”, reforça. Bill leva o seu sorriso para o exterior. Eu aguento. Tento explicar-lhe as diferenças culturais. Ele já baixou para os três euros. Não quer entender: cego para vender qualquer coisa. Até a alma…O dia é de relaxe. Desligar motores. Descomprimir. Esticar as pernas e massajar o olhar com a imensa história viva de Istambul. O fausto e intenso jantar da véspera ainda mói. O exagerado pequeno almoço não ajudou. Deambular sem destino pela atrativa zona histórica soa perfeito.Vemos como as duas majestosas mesquitas se degladeiam no esplendor. Uma é o museu Hagia Sophia. A outra inicia o audível chamamento para a oração. Os fiéis apressam-se. Somos abordados por pedintes com pouco ar de carência.Detemo-nos com excluído social. Percebe-se claramente o seu desvio  comportamental. Não emite sons. O seu olhar infantil está preso a um vídeo com imensos ratos. A serem alimentados a… leite. É youtube em placard informativo que o trintão barbudo reservou para si. Há outras imagens de ratos a serem – bem – alimentados. Nao sabemos se   o nosso amiguinho tem a mesma sorte. Despedimo-nos com um sorriso. Fica preso à sua vida, numa outra dimensão. Em beco improvável, galeria de pintura. Com grafitis a conduzir-nos. Pai, mãe e filha dedicam-se à mesma arte, que impressiona em diferentes estilos. Perguntam de onde somos. Cinco simpáticas respostas falhadas depois, comunicamos em português. Elogios para o espaco. Aliviados por poupar a filha a dengosos elogios. É que o pintor nunca foi a Portugal, mas fala mais do que bem. E sem sotaque. Percebe que não viemos para comprar.Apostamos na marginal. Temos barcos de pesca, amplo mercado de peixe e restaurantes. Podemos comprar e levar para grelhar. Ainda não conseguimos comer.O nosso caminhar vira-se para o Grande Bazar. Sempre a subir. As artérias vão ganhando movimento. Jovens jogam à bola. Idosos de terço na mão enquanto falam e bebem chá. Outros apostam em jogos de mesa. Intensifica-se o comércio. A vida. Chegamos.Esperava mercado confuso, quase claustrofóbico. Velho e a abarrotar de gente aos berros e encontrões. Bem-vindos a uma Turquia mais ocidentalizada no trato. Ninguem me chama, aborda ou puxa. Nem 8, nem 80. Preciso de mais confusão. Atalhamos por artérias mais estreitas, sem tetos trabalhados. Ficamos mais aconchegados. Tal como o nosso estomago quando entramos em “boteco”para atacar um saudoso kebab. Não há em pão. Em prato serve. Acomodado do delicioso pão árabe. O visto para o Ruanda é subconsciente que vai emergindo. Melhor atalhar para o hotel. Queremos ter margem de manobra para indesejado plano b no aeroporto.Em moeda turca, o equivalente a 16 euros. Certos. Dizemo-lo ao taxista. Olha para nós, abana a cabeça e com a mão ondulante, atira: “Sim, uns 16/20 euros”. Deixamos a nota por inteiro. A sua expressão merece-o. Precisaremos da mesma “simpatia” muito em breve…..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?