GENOCÍDIO

África Ruanda

Para o “entender”, é necessário recuar na história. Em 1890, o Ruanda foi entregue ao império alemão, que o perdeu para a Bélgica após a I Guerra Mundial. O seu domínio foi bem mais direto e duro que o germânico.
Utilizando a igreja católica, a classe alta dos tútsi foi usada para reprimir a maioria da população, hutu e demais tutsis: cobrança de impostos e trabalho forçado, criando um fosso social maior do que o que já existia.
Vários processos, reformas e acontecimentos levaram a que em 1962 tudo mudasse e os hutus passaram a dominar a política. Esta mudança levou a várias medidas de repressão contra os antigos opressores tutsis.
Em 1990, uma série de problemas climáticos e económicos geraram conflitos internos e a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), dominada por tútsis refugiados nos países vizinhos, lançou ataques militares contra o governo hutu, a partir de Uganda. O governo militar de Juvenal Habyarimana respondeu com programas genocidas contra os tútsis.
A 6 de abril de 1994, Juvenal Habyarimana e o presidente do vizinho Burundi, Cyprien Ntaryamira, foram assassinados quando o seu avião foi atingido ao aterrar em Kigali, capital do Ruanda.
Em resultado, durante os três meses seguintes, militares e milícias ligados ao antigo regime mataram cerca de 800.000 tútsis e hutus opositores ao poder instituído…
Até 2001, foram julgados 3.000 criminosos e 500 tiveram a pena máxima.
Em 2003, as primeiras eleições democráticas elegeram o tutsi Kagame para o poder, levando dois milhões de hutus a fugir para o Congo, com receio de represálias. Muitos regressaram, enquanto outros continuam no país vizinho em milícias envolvidas na guerra civil que continua a alastrar.
O cartão de identidade deixou de incluir a etnia.
Hotel Ruanda e Aperte as mãos do Diabo. Dois filmes que contam relatam as atrocidades. Baseados em histórias reais. De um funcionário de hotel que tenta salvar a sua família e centenas de outros perseguidos, refugiados nas instalações do Mille Colines. E de um militar canadiano em missão de paz e de como o seu pedido de ajuda à ONU foi simplesmente ignorado.
Ambos os filmes deixam clara a tentativa da dupla do costume – Estados Unidos/Inglaterra – de impedir a veiculação do termo “genocídio”, o qual obrigaria a uma intervenção internacional com a participação de ambos.
A Constituição de 2003 afirma que “organizações políticas estão proibidas quando baseadas na raça, etnia, tribo, clã, região, sexo, religião ou qualquer outra divisão que pode dar origem a qualquer discriminação”. O governo do Ruanda também aprovou leis criminalizando a ideologia genocida, que inclui manifestações de intimidação, discursos difamatórios, negação do genocídio e ridicularização das vítimas.
O Human Rights Watch diz que as mesmas fazem do Ruanda um país de partido único. “Sob o pretexto de prevenir um outro genocídio, o governo exibe uma intolerância acentuada das formas mais básicas de dissidência”..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?