Dream Nyamirundi

África Ruanda

Vamo-nos aproximando da margem e as crianças já correm para nos receber. Com entusiasmadas e sonoras palavras que não entendemos. O alarido vai alertando a aldeia e a nossa presença deixa de ser incógnita. Estamos em Nyamirundi, na margem do Ruandado lago Kivu.Paramos para almocar. Bom, para tentar. Aqui não é fácil, provável ou exequível. A aridez da placa do ‘restaurante’ Turebe indicia que não teremos sorte. Na verdade, um quarto escuro com mesa corrida. Baixa. Imprópria. E sem sinal aparente de comida. Avançaremos para o alto da aldeia. E entramos no exclusivíssimo bar com o seu nome.Lugar surpreendentemente agradável. Limpo. Bem tratado. Com sombra. Árvores. Jardim. E até um modesto palco, para espetáculos. Teremos um fantástico pão, grandes cervejas e pequenos peixes fritos para almoço. Somos os únicos visitantes em muito tempo. Atendimento com honras de Estado. Na cozinha cubículo acendem-se as brasas sem fósforo ou isqueiro. À moda de muitos séculos. Minutos a serem mimadas para crescer até entrar a panela, bem fornecida. “Joaquinzinhos” do lago  a apurar. Pergunto se têm limão. Um dos cozinheiros sai a correr e regressa minutos depois no mesmo ritmo. Com dois citrinos.Rego o peixe e convido o ‘chef’ a provar. “Huuummmmmm.. Delícia”, terá comentado. Os restantes presentes juntam-se mesmo antes de  concluirmos o sincero convite. O limão é aprovado e os pratos ficam limposem instantes. Convívio interessante nos limites possiveis das barreiras linguísticas. Gestos e sons ajudam à bem disposta comunicação.Somos esperados fora do recinto. Uma dezena de crianças que, em segundos, se multiplica.  Acompanham-nos entusiasmadas até ao improvisado e escorregadio ‘cais’. Não resistimos e ali ficamos em brincadeiras sem barreiras, idade. Agora, somos todos crianças.  Pedem-nos fotos. Deliram quando se revêem em imagem. Posam com orgulho. Quem antes chorou de inexplicável horror por ver estranhos de pele branca, já sorri e para a fofografia. Vigoroso aguaceiro junta-nos sob improvisado teto. Meia hora de violento dilúvio.  A aldeia leva-nos de volta ao barco. As três canetas que antes distribuí souberam a pouco. Não sei se viverei algo igual na viagem. Distribuo mais de 30. A criancas, jovens e seus pais. Que se atropelam por um “cadeau” valioso nesta parte do planeta. Estão todos na água e os braços acenam-nos vigorosos. Até desaparecermos no horizonte… Não sabem, mas deram-nos muito mais do que aquilo que receberam…As seis horas de puro deleite a rasgar as serenas águas do Kivu prosseguem. Junto à margem do Ruanda… Quando não acompanhamos a do Congo. Mais sui generis. Montanhas agrestes e escarpadas, com agricultores em declives arrojados. Multiplicam-se os acenos.A luz do astro rei vai definhando e o lago ganhando surpreendente vida.  E cor. Fim de trabalho. Muitas canoas – das mais diversas formas e feitios – rompem as águas. O ambiente é idílico e lamento cada segundo que nos aproxima do fim da jornada. Ciangugu está à nossa esquerda. Uma ponte separa o Ruanda de Bukava,Congo. O Peace Guest House será dos locais mais memoráveis das nossas estadias….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?