O fantástico campeonato do…. BURUNDI

África Burundi

E se o título de campeão nacional valesse ao clube o chorudo prémio de… 2.500 euros? E se o prémio de vitória em jogo “complicado” valesse menos do que bilhete duplo de cinema? E se o ordenado mensal não pagasse uma conta normal de luz em Portugal? Deverei acrescentar banho na rua após o treino?Ser campeão do Burundi – pequeno país africano – é mesmo assim. Rico em factos de ficção. O êxito no campeonato rende menos ao clube do que o que me vai custar este périplo de mês e meio por África. 2.500 euros é o peculio que espera o campeão do 10° país com menor índice de desenvolvimento do Mundo. “O nosso campeonato tem muitos futebolistas com valor para jogar na Europa. Apenas não somos seguidos porque somos país muito pobre. Ainda asssim, a nossa posição no ranking da FIFA (124 em 209 equipas) mostra o que sabemos”, diz-me interlocutor que não quer ser identificado. Aliás, como todos os outros das quatro equipas da primeira e segunda divisões que treinam em simultâneo em amplo ervado não muito longe do lago Tanganhica. Cada um com o equipamento de diferentes nações.“Técnica e velocidade” são as principais qualidades do futebolista do Burundi, garantem-me. Capacidades desenvolvidas em terrenos de que até cabras desdenhariam. Este amplo espaço, onde cabem uns quatro relvados normais, terá mais peladas do que erva. Bem grande e cheia de tufos. “Estamos habituados às dificuldades. Se jogamos bem nestas condições, imaginem em campos relvados decentes”, reforçam.As balizas não estão alinhadas nem têm redes, os guarda-redes usam luvas mais do que desgastadas e o treino pode ser invadido por qualquer um. A todo o momento. Não foram apenas dois cães. Também um vendedor de bebidas e snacks faz a sua aparição. Em segundos sai pela imaginária linha lateral com cesta mais leve e bolsos mais felizes. Mais tarde repete o raide que vai alternando no treino de cada equipa. O trabalho é à porta aberta, mas “raramente os treinadores gostam de preparar a equipa contra um rival”.O tom de pele denuncia-me. A máquina fotográfica que insiste em disparar levanta curiosidade. “És um ‘olheiro”, pergunta-me alguém, enquanto me atira a bola para a jogar. Decionados com a nega, mas “jornalista também é bom”. “Sim, podes contar ao mundo o que aqui vês”. Digo-lhe que sim, a um pequeno universo…Há quem tenha de abandonar o treino mais cedo para atacar o segundo (talvez o principal) emprego. Não há balneários. Improvisação: conduta de água pública, a separar o relvado da estrada, onde se banham e lavam. Despidos de roupa e preconceitos. Mas defensores da sua da sua honra, dignidade quando se cruzam com olhares estranhos.Domingo último, exemplo da simplicidade e precaridade de  condições: sem balneários, cada equipa  vai pelas ruas rumo ao decrépito “estádio”, já trajada a rigor, perante a indiferença da habituada população. “Equipamo-nos onde der. Isso nao é importante”. O aquecimento é uma festa para qualquer europeu. Quantas vezes é mais uma dança do que correta preparação física. Criativas coreografias acompanhadas regularmente de palmas. Ritmo. Ritmo. Ritmo.O futebol no Burundi pode ser um espetáculo sui generis. E até uma liçãoo de vida. Sobram-lhe motivos de interesse. Fiquei fã!  .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?