BUTARE

África Burundi Ruanda

Nesta zona do planeta os motoristas são excelentes. Ou verdadeiros inconscientes assassinos. Pelo que fazem na estrada, tento acreditar no bom senso da primeira. Voamos a grande velocidade até à fronteira. Mais uma vez, não conhecem o nosso visto triplo. Não colocam problemas, mas chamam os colegas para ver a novidade. A sair do Burundi, militar pede-me para ver máquina fotográfica. Sei que registei imagens normalmente proibidas, mas sempre se podem apagar. Tenta ver para trás, mas o botão está encravado e apenas consegue ver a última imagem. Nada a fazer. Siga. Butare é conhecida por ser a capital cultural do Ruanda. E a maior universidade do país. Estão os doutos estudantes de férias, mas nem por isso falta vida nas ruas. Após convenientemente instalados em albergue religioso – a fé faz sempre por se tratar muito bem em África e o St. Jean Baptist não é excepção – seguimos para a rua central, a própria estrada nacional, e logo aí surpreendidos com música e dança. Companhia de telemóveis anda em tournée pelo país. Dois jovens cantam em palco em cima de “TIR”, enquanto duas donzelas mostram invejável panóplia de dotes com as suas linhas bem trabalhadas. Não estranha, por isso, que a cidade tenha parado tudo a ver. Quando nos posicionamos e mostramos que também temos ritmo no corpo, olhares, sorrisos e comentários viram-se para nós. Quase sete euros/cabeça por buffet cheio de regras e alíneas quanto ao preço soube a simpática extorsão. Na capital, por melhor, em todos os sentidos, pagamos apenas dois euros. O Museu Nacional do Ruanda toma-nos a tarde. Muito interessante. No edifício mais moderno que vimos no pais. Térreo. Toda a história e modos de vida do país contados em texto, fotos e muitos utensílios. Somos os únicos visitantes, pelo que temos direito a guia. Estagiária. Demasiado informal, mas corre bem assim. Caminharia connosco de volta ao centro. Ensina-nos, por sua iniciativa, a dizer “branco bonito” (Musungo Besa). Com essa expressão brincaremos com dezenas. Quase com direito a clube de fãs. Quase… A rainha Astrid da Bélgica deixou catedral de respeito. Assistimos a parte de uma missa. Um quarto de ocupação dos lugares, sendo que na sua maioria são freiras. Que vemos, amiúde, passar em grandes e possantes jipes. Onde estão os fiéis? Para onde vai o dinheiro das ajudas internacionais? Aqui, a religião também é o caminho para a salvação… Ao jantar, no melhor restaurante da cidade, atacamos caracóis e coxinhas de rã, entre outras distintas e surpreendentemente bem confecionadas iguarias. Gikongoro é outro nome de vergonha. Mais genocídio. 50.000 assassinatos entre as 03:00 as 12:00. “Bom trabalho, rapazes”, disse, no fim, o chefe de operações. Terror em escola pública. Milhares de corpos, amontoados e mumificados, preenchem várias casernas. Mas não quero falar mais disto… O dia despertou com muita luz. Vá, vamos ver o que nos reserva o Uganda….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?