BUNYONYI LAKE

África Uganda

A caminho da centena de países visitados, assumo, sem modéstia, que tenho médio /razoável conhecimento de muitos dos lugares mágicos do planeta. Com as suas paisagens, história, cultura e afáveis pessoas, este lago conquistou, meritoriamente, lugar no Top. Irrelevante se cinco ou 10.Não há despertar igual ao do Bird’s Nest. Sair dos étnicos e amplos quartos e apreciar da varanda a natureza frondosa e o relaxado plano de água que se aninha aos pés do nosso olhar. A bruma começa por conferir mistério e misticismo à paisagem, que se vai revelando à medida que os raios de sol a despem… A sinfonia animal dá-lhe o toque necessário para a plenitude. Apetece congelar o momento. Fazer eternizar as envolventes sensações que desafiam cada um dos sentidos…Há que atacar o dia. Após pequeno almoço principesco, com visão de éden, passeio em canoa escavada em tronco de madeira. Rasgar as águas que teimam em manter-se amigas e apreciar o cenário.  Sentimo-nos protagonistas de documentário da National Geographic. Seja pelas aves que mergulham a pique em busca de incauto peixe fresco, pelas cabras que pastam e se equilibram nas encostas ou as famílias que vão cruzando o lago em pirogas. Uma imagem de séculos…Apetece ‘comer’ a paisagem, pelo que é em terra que a saboreamos agora. Será longo passeio de quatro horas em exigente, mas delicioso sobe e desce em contacto com os locais. Tão entusiasmados, abertos e comunicativos quanto nós. Um jovem que não sabe a idade – diz ter 16, mas apostamos nos 20, e assume-se órfão com outros quatro irmãos – vai-nos fazendo companhia. Torna-se como que um guia de informação, sem se impor. Respeitando o espaço de cada um, quando necessário. Cruzamo-nos com gente de sorriso franco, fácil.  Crianças desejosas de cumprimentar os “estranhos”. Muitas encosta acima a transportar água desde o lago. Entramos em ‘bares’ e restaurantes que não passam de meia dúzia de tábuas mal amanhadas. Mulheres trabalham a terra e cuidam da casa, ajudadas por incontáveis filhos… Vemos bem-estar ‘espiritual’ em quem nem calçado tem. Um bem que, mesmo em segunda ou terceira mão, é para muitos um inatingível luxo…
Lá do alto, contemplamos a ilha do castigo. Minúscula e com apenas uma árvore. Até não há muito tempo, era residência “oficial” das mulheres grávidas, mas sem marido. Ali ficavam. Até serem levadas, pela morte…Dez sombrios metros quadrados podem albergar outras tantas pessoas. É um distinto bar onde homens e mulheres se misturam em torno de cerveja artesanal. Com cereais e mel. Não ficamos verdadeiros fãs, mas vale pela partilha.O tempo flutua sem regras. E o cansaço físico final é esmagado por tudo o que está a ser experienciado.Pheona atrasara-se uns minutos de manhã e teve de esperar. Na dengosa esplanada. Faz-nos companhia ao almoço que também o é para uma ave de rapina: várias vezes ao dia, o nosso anfitrião, Raf Segers, lança pequenos pedaços de carne que o seu amigo apanha em voos de mestria.Vamos até a aldeia. Minúsculo supermercado cavernal que mais parece um bunker, apinhado de gente. Tem televisão. Aparentemente, a única na população. É puro fascínio. uma multidão hipnotizada por pequena tv, com imagem de fraco nível.Com uma local que vemos a descascar batatas em frente a sua barraca, marcaremos almoço  para o dia seguinte. Em lugar paupérrimo – como todos os outros – e com direito ao menu habitual: arroz, feijão, ‘motoke” (banana cozinhada, que mais sabe a batata) e “crayfish”, um marisco do lago que seria substituído por ranhosos, gordurosos e parcos pedaços de carne de vitela. Para nós, um manjar em família.A piscina panorâmica e natural, com as águas do Bunyonyi purificadas por plantas, volta a ser o nosso poiso no Bird’s Nest. A melhor forma de deixar o dia avançar nas tonalidades do céu… Aguas… Paisagem… Desta vez com belgas que não acham piada a Pheona entre nós. Irrelevante. Estamos todos mais do que bem e ficar com toda a piscina e espaço envolvente só para nós não é motivo para qualquer preocupação. Sem que tenhamos de agradecer.
O jantar combina a melhor gastronomia com uma sala de jantar do mais belo e acolhedor que recordo. Espaço étnico com cores quentes mescladas na luz…e música a ligar tudo com mestria…
No Lago Bunyonyi não falta o que fazer. E ver. Ate pigmeus. A pé. Em canoa ou barco. Em  trilhos btt…Aqui, no remoto Uganda, há lugares e momentos que fazem questão de ser eternos….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?