9 coloridas horas de autocarro ate KAMPALA

África Uganda

Que saudades dos verdadeiros grandes autocarros em longas viagens africanas. Depois de termos voltado a Bakale e ao fantástico – e very british – White Horse Inn, despedimo-nos da simpatia de Pheona e embarcamos. Após sermos obrigados a trocar os bilhetes comprados na véspera por outros exatamente iguais, o carcomido autocarro logo me  ‘cumprimenta’.  O desfeito apoio de braço deixa golpe longo, mas nada profundo na perna. Alias, nada na viatura está ‘conforme’. Tudo decrépito. Parte com meia hora de atraso e pára logo 500 metros depois. Ofegante donzela faz longa corrida e consegue embarcar. Instala-se entre mim e Daniel. Bill já espalha charme e sorrisos na fila de trás. Teremos nove penosas, mas fantásticas horas pela frente. Nas quais espero que TUDO aconteça. Vai gente em pé. Que se vai amalgamando na parte de trás. Com tendência a expandir. “Machete”  é o primeiro filme exibido. Violência primária, mal encenada. A cada minuto alguém vê a cabeça ser-lhe arrancada, o corpo ser trespassado por machete (catana) ou levar tiro na cabeça. Bem ritmado. A presença de Robert de Niro, Don Jonhson, Lindsay Lohan ou Jessica Alba indiciam que só pode tratar-se de comédia ou sátira. Mau de mais para ser de outra forma. A voz off é verdadeiro relato do filme (com explicações durante longas pausas de diálogo) na língua nativa, impede-nos de entender a verdadeira natureza da película.Machete Kills e Machete Kills Again são os próximos filmes da sequela. Medoooooo…A alma descansa com película africana de criança com manias e comportamentos de adulto. Deliciosamente horrível: não entendemos o parco diálogo, os atores são sofríveis, não há ritmo, criatividade. Os planos longos e repetitivos deixam muito a desejar. E chega de bater no ceguinho.
Todos os olhares devoram avidamente cada cena. E riem-se com as nossas reações exacerbadamente latinas à qualidade das obras de arte.O fim do filme seria alívio, caso não entrasse em cena relato de um jogo da liga inglesa de equipas do fundo da tabela. Bem alto. Com o relatador a rir a toda a hora. Estilo o saudoso cão Muttley…
As paisagens desfilam pobreza, mas nem por isso rostos fechados. Cada paragem, dezenas de vendedores apinhados contra as janelas a tentar despachar algo. Luta-se por cada tostão.  Sobrevivência é luta diária. Sem luxos. Sem contemplações.No meio do nada, uma camisola do FC Porto. Benny McCarthy. Surpresa, até porque quase só se vêm camisolas da seleção do Uganda. Nunca vi febre assim numa população. Aderimos e compramos as nossas.Temos novo vizinho. Cinquentão inglês em projecto de solidariedade numa pequena aldeia. Relata as dificuldades. Culturais, processuais. De assimilação.As paragens técnicas para wc podem ocorrer no meio do nada. Com mulheres a valerem-se de saias para se protegerem de eventuais olhares felinos.Os corpos revoltados de pegajoso cansaço. Mais de 30 graus. Sem ar condicionado ou algo que o valha. Desesperamos por um duche. Saímos a dois quilómetros do centro. Estamos no Backpackers. .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?