Mombaça

África Quénia

Especiarias. Muitas Cores. Quentes. Felizes. Odores. Buliço e azáfama imutável ao longo dos séculos. Estamos na cidade velha, onde cada beco é uma delícia. O Forte de Jesus é apenas um pretexto para começar a explorar. A influência árabe abafou a portuguesa, mas a old town mantém o ‘charme’ do melhor dos dois mundos.Não espero uma cidade limpa e arrumada. Nem a encontro assim. Aliás, começamos por ver dezenas de polícias a correr de cassetete bem levantado. Muitos gritos e confusão. Perseguem vendedores e atropelam tudo o que encontram. A ordem de abandonar a ‘baixa’, onde ganham diariamente o pão, deixou-os irados 2.500 vendedores de rua. Há imagens de violência na capa de todos os jornais. A violência da véspera ainda não acalmou. Ainda assim, não se sente tensão.Vamos provando frutas exóticas desconhecidas. Frutos secos. Especiarias intensas. Abordados próximo da exaustão para comprar de tudo um pouco. Aguentamo-nos.Dizem-nos que há uma mistura, de ingredientes naturais, que, mascada suave e muitoooo lentamente, nos levará ao céu. Daniel, com olho de médico, observa enquanto eu e Bill Sorridente provamos a mistela. Fartamo-nos de cuspir alaranjado, mas sem qualquer efeito. E só pagamos umas cinco vezes mais pela ‘experiência’ popular entre os locais.Deambulamos sem destino. Dividimos almoço antecipado por um euro. Apenas um.Para provar. Delícia de sabor, pena a rigidez (não era demasiada) da carne. Não esperava outra coisa em panelas de rua.
O velho porto está caduco. Apenas três embarcações. Uma delas com bandeira da Somália.”São uns bandidos. Regularmente atracam, fazem assaltos e fogem pelo mar. São verdadeiros piratas. E não há quem acabe com isto”, queixa-se um dos pescadores. Nas lojas de artesanato o nosso tom de pele inflaciona os preços. Estupidamente. Fico-me pelo prazer do regateio.A fome aperta e o verdadeiro almoço tem ar condicionado, Nactional Geographic TV (as 1001 formas violentas de uma tartaruga morrer) e boa comida indo-árabe. E gelados do melhor. Estamos a metros do Forte de Jesus, que visitamos de seguida. Antes de apreciarmos futebol em cubículo adjacente junto ao mar.A vida em Mombaça tem luz do dia. A noite é um deserto. O Copacabana é bar e restaurante ‘animado’ que nos aconselham. Vamos já com o sol rendido. O espaço é giro. E não demoramos a perceber que é de ‘ataque’. Enquanto apagamos a sede, somos abordados, em momentos diferentes, por duas donzelas. Que prometem muito prazer. Dizemos que somos padres. Os três. “Então vieram ao sítio certo, a caminho do inferno”, diz-nos a primeira. Incrédula. Abandona quando percebe que a nossa fé é inabalável. A segunda é ainda mais assertiva, mas jamais conseguiras desviar-nos do caminho da virtude…O  avião para Adis Abeba é às 05h00. Inútil ir à cama. Esplanada do nosso hotel histórico, um dos mais requisitados da cidade. Ou não fosse Royal… Aproveitamos o calor, a noite e jantámos… Duas vezes. Está na hora de voar até uma nova realidade..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?