LALIBELA EM FESTA

África Etiópia

Diz-se por aqui que o rei Lalibela foi envenenado pelo irmão. E que na indecisão de passar para o outro mundo teve uma visão de Deus. Que o exultou a replicar Jerusalém. Em traços muito rápidos, foi assim que nasceu este complexo de 11 igrejas esculpidas no solo.Hoje há cerimónia em honra a São Jorge. Dezenas de turistas no solo, com visão superior para as profundas escavações, onde decorrem as cerimonias religiosas. Ortodoxas. Desço por pequeno labirinto e estou ao nível da cerimónia. Atropelos por fotos. Não gosto. Fico a apreciar.A procissão sai e vai por longa artéria poeirenta ao longo de cerca de um quilómetro.  Canta-se, dá-se ritmo com palmas e dança. Se não estivesse a experienciar a situação, diria que todos, sem excepção, abusaram de algo ilegal. A verdade é que tudo soa a genuíno e é muito fácil deixar-nos ir…O complexo de igrejas, a impróprios 50 dólares, fica para segundo plano comparado com o êxtase da moldura humana que termina em descampado.  Os religiosos exibem-se como as equipas de futebol que ladeiam os árbitros para o aplauso inicial do público. E os ‘safari tourists’ voltam a acotovelar-se para as fotos da praxe. Estáticas.Não perco dois minutos aqui, sigo a música ritmada que a 30 metros reúne jovens em apreciável roda. Dois lideres de megafone ao centro e três bombos que vão sendo orgulhosamente revezados. Gargantas e entusiasmo ao máximo. Empenho e gozo no rosto de todos. Assim, dá gosto. Apenas a imperdoável frustração de ficar sem bateria na máquina fotográfica…Ao lado, outro grupo, espontâneo, experimenta outras sonoridades. E dançam à desgarrada.   Aos pares. Novamente com os ombros a comandar tudo.No fim há uma mega distribuição de comida. Centenas espalhados pelo chão aguardam pacientemente a sua merecida dose. Respira-se história secular. O dia vai murchando e a minha mente já voa para o inferno do Danakil….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?