Rumo a Mekele

África Etiópia

São  04:25 quando o guarda noturno me desperta. Chuveiro rápido e em minutos inicio caminhada de meia hora, felizmente sempre a descer. A mochila e a viagem sempre em movimento pesam. Seguirei com pastores que não falam inglês.Os portões da “central” de autocarros abrem e todos se precipitam em louca correria. Para garantir lugar. Arrisco no maior autocarro. Corre mal, vai para Adis Abeba. Alma gentil leva-me a outro veículo. Convence o “pica” a deixar-me subir, pois está já cheio. Mark é o único turista que encontro. Quer subir, mas impedem-no. Insisto que somos amigos e viajamos juntos. Discussão, mas conseguimos. Partilhamos o destino. Impressionante o número de pessoas a caminhar noite cerrada em terra de ninguém.
Mudamos de veículo em Woldia e fazemos o mesmo em Alamata. Aqui, motorista e passageiro envolvem-se em luta. Murros, pontapés e muitas palavras berradas. O primeiro insistia que o serviço acabava ali. O segundo, que tinha lotado o tejadilho com mobílias desmontadas, exigia parcos 200 metros mais. Conseguiu, mas pagou mais.
A estrada nacional está ocupada por todo o tipo de animais e há que fazer gincana. Em muitos lugares remotos há quem passe o dia a tentar entrar em transporte público e não consegue. Até padre leva com porta na cara. Jovem de uns 20 anos pendura-se atrás da Hyace e vai assim uns 40 quilómetros. Aguentou de tudo, estóico. Depois baixou e seguiu o seu caminho. Há ainda quem, antes do início da viagem, seja retirado do veículo para dar lugar a mais velhos e tenha de se amanhar no próximo, seja quando for.Mekele chega 12 estafantes horas depois. Procuramos estadia juntos e ficamos a50 metros da central. Quarto single com duche quente privado a quatro euros. Luxo..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?