Calcorrear MEKELE… e os seus concorridos mercados

África Etiópia

O Jordanos é restaurante de referência  e vai receber a minha regular visita. Deliciosos e espessos sumos de fruta a 60 cêntimos são uma tentação. Tal como toda a sua gastronomia. Desde a local, pizzas e a sua sui generis ‘cozinha francesa’, apenas com pratos… italianos. Pastas, basicamenteÉ aqui que conhecemos Wesam, um libanês de 50 anos que anda curtir o Mundo. Sem tempo ou orçamento fixos. Com saudades, a namorada veio de Los Angeles, onde ambos residem, visita-lo. Uns dias pela Etiópia. Foi o seu entusiasmado relato do Danakil  que convenceu Mark a alinhar comigo na expedição. Eu e o húngaro de 44 anos, casado em Taiwan, onde leciona inglês (viveu uma década no Canadá e dois anos na Coreia do Sul), estamos em sintonia. Um dia de descanso. Apenas mercados.O grande mercado começa por me encantar com as suas múltiplas carroças que afluem de todos os lados e com todo o tipo de mercadorias. Furam entre as pessoas com preguiça de se afastar (comum por estes lados) e das  centenas de animais à solta. Burros e cabras, essencialmente.O mercado é hino à imaginação. Exemplo disso a montanha de pneus velhos, gastos ou rebentados transformados em cestas, sacolas ou cintos. As galinhas vivas, penduradas cabeça para baixo em pau carregado aos ombros, enquanto os vendedores andam a cirandar pelo mercado. Aqui também se mói especiarias. É o ensurdecedor barulho das máquinas que me leva até lé. A curiosidade faz-me espirrar por bons minutos. Ambiente difícil e sufocante. E há quem trabalhe nisto uma vida inteira…Barbeiros há muitos. E para todos os gostos. Pena não estar necessitado. Percorro as principais artérias, ruas e ruelas deste amplo e dinâmico espaço, e sou surpreendido a cada olhar. E não é apenas a visão…Mais tarde, já a caminho do mercado de animais, impelido a entrar no amplo pátio de escola. Da primária ao nono, presumo. Todos com a mesma farda em tons de tinto. Vinho, digo. Não falta quem venha falar comigo e sou desafiado para jogar à bola.
Tudo acaba mesmo antes de principiar. Um funcionário pouco amigável chega em altos berros e vara comprida na mão. Não se dirige a mim, mas aos estudantes. Um verdadeiro pastor a afastar o rebanho do lobo mau branco. Já tem poucos animais, o segundo mercado. Mais pobre e sujo. Criança defeca ao lado das alfaces que a mãe vende. A progenitora nem remove as fezes,  nem tapa a obra. Apenas deixa estar. Falamos de 20-30 centímetros dos produtos que tenta vender. Marketing…Encontro jovem de uns 13/14 anos com rosto invulgarmente exótico e belo. A ponto de ser capa de revista National Geographic. Não quer ser fotografada. Insisto, em sorriso amigável. Afasta-se sempre. Vai seguir-me uns 10 minutos. Apenas entendo o meu fascínio por aquele rosto embrulhado em lenço bordot. Não a curiosidade dela.A venda de cereais por atacado caiu imenso na ultima década. Garante-nos vendedor com o melhor nível de inglês que encontro no país. Um desperdício o seu talento não lhe ser útil para outros voos profissionais. Ficou o  desafio…Os contactos para o Danakil fechados e formalizados. 400 dólares por cinco dias. Não tenho registo de nada tão competitivo. No nosso grupo, houve quem tenha pago 600 pelo mesmo. Prontinho a arrancar na manhã seguinte..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?