Cores e caravanas de sal

África Etiópia

Hamadella caiu-me de tal forma no goto que até os rostos Afar já me são familiares. Mesmo quando a luz do dia ainda hesita em despertar. As cabras voltam a ser as mais madrugadoras. Cirandam entre os colchões. Entram em todo o lado e não são  cerimoniosas na dieta. Tanto atacam uma garrafa de plástico como uma peça de roupa.O simpático casal septuagenário francês volta a atrasar-nos, mas ainda partiremos cedo. Fortemente escoltados, atacamos 45 km na Depressão Danakil. Começámos pela aventura mais colorida. Montanha de sal interminável de trepar. A recompensa em forma de lagos de minerais em quentes e cativantes cores. Um éden que, em breve, poderá deixar de o ser. Não há um caminho definido, protegido. Cada visitante circula por onde e como quer. Aqui a pegada e ecológica é difícil de evitar. Um crime. É um mini Yellowstone que merece ser protegido. Cuidado. E com informação, pois não a há. Com receio que rebeldes da Eritreia voltem a fazer vitimas, o lugar é mais do que bem guardado. Um exagero que se dispensava. Estas cores fantásticas merecem outro esmero e cuidado.A umas rochas cavernosas em paisagem lunar que não cativam por aí além. Nem os lagos ácidos ali perto. Ainda borbulham de gases. Os pássaros que lá bebem, já não voam. Morrem ali. É fácil encontrar os seus corpos ressequidos. Finalmente, o deserto de sal. O início de tudo. Branco a perder de vista. Grandes blocos são partidos. Depois desmantelados em pequenas placas. Juntam-se várias e amarram-se aos camelos. E aos burros, mesmo sem as aptidões adequadas, também entram no processo.Todo o processo tem longos séculos. Os Afar acreditam que maquinaria destruiria o lugar. Será mais um castigo. Diz a lenda que o Danakil era todo ouro. Que toda a gente vivia muito bem, mas que a ganância os destruiu. E Deus castigou-os transformando o ouro em sal. Dantes, ganhava valor a cada quilómetro que se afastava da origem. Hoje mal dá para sustentar este modo de vida.Reencontro o meu amigo de turbante verde. Ele insiste nos meus óculos. Eu na sua indumentária. Pena que não fale inglês… Gostava de saber mais da sua duríssima vida. Que parece gerir com relaxada e bem disposta atitude.Ainda há tempo para almoço em Hamadella. E regresso pelo caminho mais do que acidentado que nos devolve a Makele.”É melhor morrer do que viver sem matar”, diz o provérbio Afar. Num dos mais loucos lugares do planeta isto fará tanto sentido..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?