Fight for your ‘life’

África Etiópia

O Islão fez questão de me acordar bem antes do meu amigo, devoto de Ala. Ainda não são 05h00 e já estamos no ‘terminal’. Há um autocarro para Gondar, mas está mais do que lotado. Resta aguardar. Uma hora depois, minibus – as Hiace do costume – para Debark. A multidão corre e eu não me deixo ficar. Conseguirei entrar, com a mochila ainda as costas. É luta complicada. Física.Fica gente de fora e então começam os esquemas para tentar tirar o ‘faranji’ (estrangeiro) do veículo. Há discussões em série. Entra gente, sai gente em indecifrável amálgama de corpos. Abordam-me na janela a dizer que o veículo segue para o lado oposto para onde vou. Digo que não me importo, estou sem destino.Depois uma mão puxa por mim para sair da carrinha. Resisto. Vizinho de lugar diz que é a polícia a querer confirmar conteúdo da minha mochila. Não quero saber, não vou sair da carrinha. Insiste em puxar-me o braço à força, continuo firme. Este pesadelo é para deixar hoje mesmo. Vou agarrar esta oportunidade única. Finalmente, alguém toma o meu partido e ganho algum sossego. Mas a mochila vai para o tejadilho. Arrancamos ainda noite cerrada e só com a posterior luz do dia percebo que o meu amigo também conseguiu ficar no transporte. Está na última fila. E acena-me.Serão quatro horas em estrada que ainda não o é. A montanha já foi rasgada, mas não há um quilómetro de asfalto. Muito pó. E paciência. Como em todas as viagens, há varias pessoas a vomitar. Estou forçosamente prevenido: não há forma de tomar pequeno-almoço. E nem água tenho para saciar a boca ressequida.Tudo custa menos com as deslumbrantes paisagens das Simian Mountains, o primeiro Património Mundial UNESCO da Etiópia.Debark chega com o asfalto. Algures, o meu kispo/impermeável deixou de me acompanhar. Não voltarei a vê-lo. Vou mais leve. E fresco. Que faça muito jeito ao engraçadinho…No escritório de acesso as Simien, pergunto se têm algo vocacionado para jornalistas.  Um kit com informação, a disponibilização de um guia. Qualquer coisa.
Ligam para Adis Abeba. Telefonema para aqui e para ali. Desisto. Digo que não tenho mais tempo a perder. Quero apenas o meu bilhete e o obrigatório scout, para me acompanhar. ‘Você é que complicou tudo. Disse que era jornalista e agora é apenas um turista normal’, diz-me o responsável. O filme ainda dura uns 40 minutos. Finalmente pago e venho embora. ‘Mas não vai fazer nada estranho na montanha, pois não?’, acrescenta, no fim. ‘Tirando pegar-lhe fogo, nada mais me ocorre’, sorrio, com a resposta mais absurda que me vem à cabeça. Fica algo apreensivo. Venho embora.Exploro a pequena cidade em ruas apocalípticas (não faltarão fotos, mas na Etiópia é um martírio fazer upload de qualquer coisa). Surpresas, crianças abordam-me e cumprimentam. Com punho no punho. O grupo cresceeeeeee… Pedem-me para lhes tirar foto. E para tentar marcar penaltis com bola de trapos. É uma festa quando marco. Feriado nacional quando sofro, na baliza.Balotelli é  o vendedor de chicletes que me segue para todo o lado. Tem o penteado do seu ídolo e parecenças físicas várias. Presumo que me apresenta como seu amigo. Fica comigo até me recolher. Na madrugada seguinte, já me espera em frente ao hotel, para me cumprimentar….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?